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Resenha Crítica | O Apartamento (2016)

Forushande, de Asghar Farhadi

.:: 40ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

O diretor e roteirista Asghar Farhadi talvez seja atualmente o maior expoente do cinema iraniano a provar mundialmente que os filmes produzidos em seu país estão muito longe de serem tediosos e de vocabulário restrito. Ao contrário. Sem abrir mão das tradições culturais que cercam a sua realidade, Farhadi ainda assim exibe a ânsia de uma juventude e a quebra de paradigmas dos adultos.

Justamente por considerarmos todos esses fatores, “O Apartamento” soa um tanto discreto dentro do recorte mais recente e vibrante de sua filmografia, ainda que o ponto de virada do roteiro premiado em Cannes seja extremamente espinhoso de ser discutido pelos iranianos. Trata-se da condição da mulher em uma situação de abuso, geralmente privilegiando o silêncio em nome da honra.

Além de professor, Emad (Shahab Hosseini) também lidera um coletivo teatral, atualmente encenando “A Morte do Caixeiro Viajante”, a mais notória peça da autoria de Arthur Miller. Com Rana (Taraneh Alidoosti), Emad compartilha não somente o palco, como a vida privada em um apartamento em que acabaram de se mudar após o endereço em que viviam anteriormente ser ameaçado de desabamento.

A transferência de moradia resulta em uma situação em que Rana se transforma em vítima de um ataque, sendo gravemente ferida por um estranho enquanto se banha. Ao conhecer a verdadeira natureza da agressão, Emad passa a ser corroído por um sentimento de vingança enquanto Rena prefere deixar as coisas como estão para se preservar.

Com tantos filmes de outras nacionalidades tendo uma premissa similar, a exemplo de “Paulina”, “Elle” e especialmente “O Silêncio do Céu”, esperava-se que “O Apartamento” fosse mais incisivo em sua observação sobre os comportamentos que permeiam o íntimo das mulheres ao serem violadas. Em um ângulo geral, a produção não contribui muito para o debate e, fora dele, não representa um passo adiante para Farhadi, então superando a si mesmo a cada nova obra.

Por um lado, “O Apartamento” descarta as estruturas convencionais de um mistério já deixando todas as pistas expostas para ir ao encontro do agressor. Por outro, uma predileção pela perspectiva masculina do contexto é mais perceptível, reservando em poucas ocasiões a condição de Rana em um cenário em que a mulher é secundária mesmo em situações em que seus anseios deveriam ser priorizados. Uma escolha que converge em um estrondo final sem todas as rachaduras pretendidas.

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