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Entrevista com Flávio Ramos Tambellini, diretor de “A Glória e a Graça”

.:: 40ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

Com vasto currículo na produção de longas nacionais e internacionais, o paulistano Flávio Ramos Tambellini debutou na direção de um projeto de ficção em 2001 com “Bufo & Spallanzani”. Mais dois longas depois, volta agora com “A Glória e a Graça”, no qual retoma uma parceria com Carolina Ferraz iniciada em “O Passageiro – Segredos de Adulto”, produzido há exatos 10 anos.

O realizador mostra o seu lado afetuoso a partir de um reencontro tempestuoso entre as irmãs Glória – antes Luiz Carlos – e Graça. Ainda assim, existiu resistência por parte de terceiros em abraçar o projeto, que traz Ferraz extraordinária no papel de uma travesti. Trata-se de um dos pontos abordados na breve entrevista com Tambellini que você acompanha a seguir.

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Acompanhamos a travesti Glória sendo integrada a uma família para liderá-la quando o pior acontecer com a sua irmã Graça. Em tempos em que as discussões sobre o “tradicionalismo” da família brasileira dividem terreno com a liberdade para novas formas de amor, como avalia o impacto de seu filme?

O filme fala das relações familiares e da quebra de tabus que configura a família moderna. Pode uma travesti ser mãe? O conservadorismo e tradicionalismo estão em disputa aberta com a liberdade para novas formas de amor e eu acredito que o filme transmite de maneira clara que isso é possível. Os preconceitos vão sendo quebrados e uma nova estrutura familiar se constrói. Quis que o personagem da travesti, interpretada por Carolina Ferraz, fosse uma pessoa estabelecida na sociedade e não uma marginalizada para que o foco fosse a escolha sexual e não a questão social. Acredito que o filme vai incomodar os reacionários, mas também vai balançá-los, pois acredita na emoção e na redenção.

Embora um dos temas centrais de “A Glória e a Graça” seja a reestruturação de uma família, há uma preocupação em abordar o universo LGBT e a realidade de muitas travestis na prostituição. Foi trabalhoso viabilizar um projeto que carrega essas características ou os patrocinadores hoje estão menos conservadores para apostar em histórias como essa?

Esse filme não tem empresas patrocinadoras. Talvez hoje seja mais fácil, mas na época que começamos, há cinco anos atrás, havia um enorme preconceito. Se não fosse o FSA/Ancine e a Globo Filmes, o filme não teria sido realizado.

O comprometimento de Carolina Ferraz vai além da personagem. Como foi a preparação dela e a sua contribuição para a produção do longa?

O roteiro foi levado para a Tambellini Filmes pelo roteirista original, Mikael de Albuquerque, e posteriormente foi comprado pela Carolina Ferraz, que chamou o roteirista Lusa Silvestre. Em seguida, Carolina me convidou para dirigir e produzir o longa e eu convidei o Mikael para trabalhar comigo. A Carolina se entregou inteiramente ao personagem. Acredito ser esse o personagem mais importante de sua carreira. Ela como coprodutora foi uma grande parceira e incentivadora do projeto. Com os preparadores de elenco Christian e Marina, trabalhamos intensamente o gestual, trejeito e voz. Carolina se transformou em outra pessoa.

Você foi convidado pela Mostra para participar do Memórias do Cinema. Quais os filmes que marcaram a sua vida foram essenciais para a realização de “A Glória e a Graça”?

Nenhum filme que tratasse do mesmo tema, mas como cinéfilo sou admirador de Antonioni, Buñuel, os filmes B americanos e Almodóvar. Trabalhos com diretores brasileiros, como Walter Lima Junior e Babenco, também foram importantes. Acredito em uma cinema de personagens e tenho enorme prazer em contar bem uma estória. Gosto de pensar que falo para um publico inteligente.

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Crédito da imagem em destaque: Claudio Pedroso/Agência Foto

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