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Resenha Crítica | A Glória e a Graça (2016)

A Glória e a Graça, de Flávio Ramos Tambellini

.:: 40ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

Em curto prazo, a televisão é insuperável na influência social que exerce em uma sociedade, com uma atração atingindo milhares de pessoas simultaneamente em vários pontos de um mesmo país. Já no aspecto dramatúrgico, o cinema é superior por não depender necessariamente da aprovação prévia de uma audiência por vezes conservadora para uma história existir.

Dito isso, enquanto muitos torceram o nariz para o beijo lésbico entre as veteranas Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg na telenovela “Babilônia”, a nossa cinematografia se mostra muito mais avançada ao trazer Carolina Ferraz como uma travesti sendo inserida como a líder de uma família no drama com toques cômicos “A Glória e a Graça”. Se o tratamento será ou não aceito pelo público e crítica, o que importa é que uma nova porta da temática LGBT acaba de ser aberta em nossa ficção.

No roteiro da autoria de Lusa Silvestre e Mikael de Albuquerque, temos o reencontro das irmãs Glória (Carolina Ferraz) e Graça (Sandra Corveloni), que estavam há 15 anos sem mandarem notícias uma para a outra. A iniciativa partiu de Graça, que descobre possuir um aneurisma que irá matá-la em questão de meses. Sem marido e parentes próximos, Graça precisa encontrar alguém que assuma a guarda de seus dois filhos, Papoula (Sofia Marques) e Moreno (Vicente Kato), e a única possibilidade é Luiz Carlos, hoje em formas femininas e atendendo pelo nome Glória.

Também produtora, Carolina Ferraz está tão empenhada em conferir dignidade e autenticidade ao seu papel que qualquer discussão sobre uma verdadeira travesti incorporar Glória se mostra dispensável. Trata-se de uma composição pensada em cada um dos seus aspectos, seja na postura, na masculinização de seus traços delicados e até em sua voz. Ferraz é também uma presença cheia de vivacidade, dando conta dos aspectos cômicos e trágicos de Glória sem jamais cair na mera caricatura.

É uma pena que os demais elementos dessa realização de Flávio Ramos Tambellini estejam tão aquém de Carolina Ferraz. Sandra Corveloni é totalmente ofuscada por sua colega, não conseguindo dar conta sequer dos momentos em que poderia se sobressair individualmente, como a cena em que recebe o seu diagnóstico. Há ainda uma opção em banalizar os conflitos, priorizando, por exemplo, o deslocamento de Papoula no colégio ao invés de expor o choque inevitável que há na dificuldade coletiva em aceitar o que é diferente, ainda que Glória seja um raro modelo bem-sucedido a superar as adversidades de uma sociedade com preconceitos enraizados. É como se “A Glória e a Graça” empacasse no meio de uma trilha que está caminhando corretamente, não indo muito além da boa intenção.

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+ Entrevista com o diretor Flávio Ramos Tambellini

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