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Resenha Crítica | O Nascimento de Uma Nação (2016)

The Birth of a Nation, de Nate Parker

.:: 40ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

Quando se discute os primeiros avanços para o que se consolidaria como a linguagem cinematográfica, é inevitável não passar por “Um Nascimento de Uma Nação”. No entanto, por trás dessa produção de 1915 em que D.W. Griffith promoveu evoluções narrativas e técnicas, há um discurso racista repulsivo, ainda gerando controvérsias cem anos depois. Nem mesmo “Intolerância”, lançado no ano seguinte como uma “compensação”, removeu o estigma de Griffith de cineasta maldito, ainda que genial.

Protagonista em “Nos Bastidores da Fama”, Nate Parker debuta como diretor fazendo uma provocação ao legado deixado pela obra de Griffith, apropriando-se do mesmo título para contar a história de Nat Turner, líder de uma histórica rebelião de escravos na Virgínia de 1831. A ironia é que Parker acabou carregando também uma polêmica consigo, esta de cunho pessoal: no mesmo instante em que se discutia as possibilidades de seu filme se destacar no Oscar 2017, veio a público uma acusação do suposto estupro que teria cometido quando ainda era universitário.

Enquanto ainda se noticia escândalo sexual, cuja resolução teria levado a vítima a cometer suicídio – ação relembrada que reacende o caso, “O Nascimento de Uma Nação” agora vê as suas chances na temporada de premiações sendo reduzida a zero, além de amargar um fracasso comercial que certamente acionou o alarme vermelho da Fox Searchlight, que obteve os direitos de distribuição do longa pelo valor recorde de 17,5 milhões de dólares, o dobro do orçamento da produção. Mais uma vez vem a indagação para problematizar a nossa experiência no cinema: é possível separar a obra artística de seu autor?

Atendo-se somente ao filme, é indiscutível o seu impacto e relevância em um tópico obscuro da história de nossa humanidade que deve ser sempre relembrado em uma contemporaneidade que ainda nutre o preconceito por etnias específicas. Trata-se também de uma abordagem diferente da escravidão, primeiro exibindo o negro na condição de indivíduo massacrado por seus donos para depois revelá-los em uma posição de reação.

Por isso mesmo, nada melhor do que rememorar Nat Turner, vivido pelo próprio Nate Parker, um escravo visto com certo fascínio diante dos demais não somente por ter recorrido a subterfúgios para se alfabetizar, como também pela influência natural que exercia como um pregador, proporcionando para si e para os outros algum alento com a sua crença no divino. Foi também aquele que promoveu uma rebelião quando a situação atinge um pico em que nada mais pode ser feito a não ser se rebelar.

Ainda que Nate Parker não consiga resistir a tentação de conferir um tom poético às suas imagens, como no enforcamento que se apresenta a partir de um plano fechado em uma borboleta ou nas duas ou três visões de um anjo, o seu registro é muito mais contundente que do celebrado “12 Anos de Escravidão”, impondo a crueza e o respeito que se esperam de uma história de um passado que se encena para ressoar em um presente com uma intolerância ainda enraizada.

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