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Resenha Crítica | Quando o Dia Chegar (2015)

Der kommer en dag, de Jesper W. Nielsen

.:: 40ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

Quando se fala de filmes ambientados em internatos, sempre relembramos aqueles que trazem um retrato acinzentado da infância e adolescência, especialmente denso pela restrição do ambiente. Vide o italiano “Vítimas da Tormenta”, de Vittorio De Sica, e o francês “Adeus, Meninos”, de Louis Malle. Pois “Quando o Dia Chegar”, de Jesper W. Nielsen, vem a ser ainda mais radical, descortinando os horrores vividos pelos órfãos da Dinamarca nos anos 1960.

Personagens centrais da história, Elmer (Harald Kaiser Hermann) e Erik (Albert Rudbeck Lindhardt) são uma junção do sem número de garotos que comeu o pão que o diabo amassou nas mãos de diretores e seus subordinados em orfanatos dinamarqueses. Irmãos, são obrigados a irem para um novo lar devido a condição debilitada que se encontra a mãe deles (Sonja Richter), uma operária que trabalha demais e recebe uma miséria.

Comandado por Frederik Heck (o excelente Lars Mikkelsen, irmão mais velho de Mads Mikkelsen), o orfanato em que Elmer e Erik são temporariamente instalados esconde sob uma faixada bem apresentável uma espécie de campo escravo, obrigado os meninos entre 10 e 14 anos a cumprirem um cronograma de tarefas árduas. Quando cometem alguma “falta”, são duramente penalizados, sendo expostos a humilhações e surras.

Em seu primeiro trabalho a ganhar lançamento no Brasil, Jesper W. Nielsen parece inserido no coletivo de cineastas que não poupa a plateia da encenação cruel de uma realidade. Com o apoio do roteiro assinado por Søren Sveistrup, Nielsen vai fundo inclusive ao explicitar a prática de pedofilia. Tanta maldade só cessa quando as fantasias de Elmer, que sonha em ser astronauta, ganham vida. Ou mesmo nas intervenções de Lilian (Sofie Gråbøl, bem parecida com a brasileira Fernanda Torres), a nova professora do orfanato cercada de dilemas quanto à tirania de Frederik.

A escolha de Nielsen pela exposição de uma violência nauseante ganha validade porque ela contém um desejo de contestar um passado obscuro da história da Dinamarca enquanto está sintonizado a um presente que precisa se policiar para que ele não se repita. No entanto, há em sua direção um fascínio quase sádico em explorar a vulnerabilidade de seu elenco mirim, captando os olhos claros e as feições inocentes de Elmer e Erik de um modo tão questionável quanto às ações de Frederik.

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