Resenha Crítica | Eu, Daniel Blake (2016)

I, Daniel Blake, de Ken Loach

Ao apresentar há dois anos “Jimmy’s Hall”, o cineasta inglês Ken Loach anunciou à imprensa que todos estariam diante da obra que marcaria a sua aposentadoria. Como se sucedeu também com nomes como Hayao Miyazaki e Steven Soderbergh, o pronunciamento não passou de uma precipitação vinda talvez em um breve período de crise criativa.

No entanto, o retorno de Ken Loach representa muito mais do que a realização de mais um filme, mas sim o ápice do viés político de um artista em plena sintonia com a realidade que o cerca, transformando-a em um instrumento de ficção contestador e implacável. É o ideal que molda “Eu, Daniel Blake”, merecidamente laureado com a Palma de Ouro no último Festival de Cannes após uma sucessão de deliberações equivocadas do júri presidido pelo australiano George Miller.

Embora a câmera de Loach transite nos subúrbios da Inglaterra, a crise que forma a sua narrativa é de tal urgência e alcance global que imediatamente nos visualizamos inseridos nela. Carpinteiro prestes a completar 60 anos, Daniel Blake (o notável Dave Johns, mais conhecido pelo seu talento em stand up comedy e que aqui tem o seu primeiro papel no cinema) conseguiu superar uma parada cardíaca, mas os médicos o proibiram de trabalhar ou de lidar com tarefas pesadas.

Sozinho no mundo e sem uma aposentadoria, Daniel depende de benefícios do Estado para continuar sobrevivendo. No entanto, logo se verá lançado em uma via crucis cheia de burocracias, com o departamento de Segurança Social britânico o submetendo a uma série de constrangimentos, como obrigá-lo a buscar por ofertas de trabalho que ele nada pode fazer além de recusar pelo bem de sua saúde.

Nesse processo, Katie (Hayley Squires, outra dotada de uma verdade quase sobrenatural sem contar com um grande carreira em cinema) surge como alguém em uma situação tão delicada quanto a de Daniel, tendo de se virar para cuidar de seus dois filhos (interpretados por Briana Shann e Dylan McKiernan) em um apartamento caindo aos pedaços cedido em Newcastle. Mesmo diante das adversidades, Daniel e Katie desenvolvem uma realização de solidariedade, encontrando meios de um ajudar ao outro mesmo com os recursos paupérrimos.

Muito mais que em “A Parte dos Anjos” e “À Procura de Eric“, duas ótimas realizações também focadas em protagonistas que vivem à margem da sociedade, “Eu, Daniel Blake” traz Loach avaliando com uma perícia ainda maior a eterna busca de se viver com alguma dignidade, agora em um cenário em que as organizações levantadas aparentemente para o assegurar o bem-estar do cidadão nenhum esforço fazem além de apontar o dedo para o seu fracasso.

Tato inclusive que não vê na miséria deflagrada em circunstâncias como aquela em que Katie abre faminta uma lata de comida um recurso para construir um drama sensacionalista, e sim como um sintoma de um século ainda indiferente em solucionar os abismos sociais carregados de uma herança nefasta. É um espelho totalmente desesperançoso de nossos tempos, mas há no grito de protesto de Daniel Blake e, consequentemente, de Ken Loach o incentivo a propagar o eco de uma mobilização popular tão definitiva para a vinda de mudanças.

Data:
Filme:
Eu, Daniel Blake
Avaliação:
5
Sobre Alex Gonçalves
Editor do Cine Resenhas desde 2007, Alex Gonçalves é estudante de Jornalismo e viciado em música, fotografia, leitura e escrita. Mais informações na página "Sobre".

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