Resenha Crítica | Um Limite Entre Nós (2016)

Fences, de Denzel Washington

Dramaturgo norte-americano e branco falecido em 2005, August Wilson deixou como legado um punhado de obras que conferiam um olhar especial para a condição de afro-americanos em períodos que avançavam para conseguirem um lugar ao sol em uma sociedade ainda inebriada pelo racismo décadas após o fim da escravidão. Escrito em 1987, “Fences” é um dos seus textos mais celebrados, tendo obtido com ele o Pulitzer.

Originalmente protagonizada por James Earl Jones, “Fences” recebeu revival na Broadway em 2010 com Denzel Washington e Viola Davis, com ambos vencendo o Tony Awards por suas interpretações. Pois é a dupla que está à frente da versão para o cinema, com o próprio Washington se encarregando da direção.

Coletor de lixo na Pittsburgh dos anos 1950, Troy Maxson (Washington) é um cidadão com um cotidiano extremamente regrado, variando pouco o ritual de ir ao trabalho e voltar para casa jogando conversa fora com o amigo Jim (Stephen Henderson) e exercendo o seu papel de pai rígido para Cory (Jovan Adepo) e Lyons (Russell Hornsby), com o primeiro empenhado em se tornar um jogador de beisebol enquanto o segundo tenta a vida como músico. Quando o seu temperamento está prestes a explodir, há sempre por perto Rose (Viola Davis), esposa totalmente dedicada à família.

Mesmo que ambientado integralmente na modesta residência dos Maxson, “Um Limite Entre Nós” consegue a princípio criar uma sensação da opressão vivida pela comunidade negra à época justamente pelas posturas de Troy. Mesmo conquistando uma evolução profissional ao se tornar o primeiro negro a ser promovido como condutor de uma companhia de coleta, Troy parece barrar o crescimento de Cory e Lyons por talvez avaliar a ausência de oportunidades para uma raça sempre relegada aos trabalhos braçais.

Ainda que esse isolamento funcione, por vezes tratando rápidas tomadas externas como intermissions, não se pode dizer que Denzel Washington tenha feito uma adaptação do texto de August Wilson, uma vez que ele parece não compreender as distinções entre o palco e a linguagem cinematográfica. “Um Limite Entre Nós” é puro teatro filmado, mas com resultados danosos até mesmo para os diálogos poderosos.

Trata-se da direção mais preguiçosa testemunhada recentemente, dessas incapazes de reforçar com imagens aquilo que é verbalizado ou que pretende representar. Acaba servido de esforço redobrado para Washington e Viola Davis conferirem alguma verdade a algo pouco palpável principalmente quando a narrativa excursiona  em seu desenvolvimento por uma revelação que não se sustenta a contento justamente pelo desinteresse em perseguir a plenitude inerente ao fazer cinematográfico.

Data:
Filme:
Um Limite Entre Nós
Avaliação:
2
Sobre Alex Gonçalves
Editor do Cine Resenhas desde 2007, Alex Gonçalves é estudante de Jornalismo e viciado em música, fotografia, leitura e escrita. Mais informações na página "Sobre".

4 Comentários em Resenha Crítica | Um Limite Entre Nós (2016)

    • Quanto ao Oscar da Viola Davis, não há o que questionar. Denzel Washington também merece uma nomeação como ator. Mas as indicações devem parar por aí, pois acho que, como obra cinematográfica, ele é totalmente desprovido de méritos.

  1. Só lamento uma coisa em ‘Fences’: o fato de Viola Davis ter se submetido, nesta atual temporada de premiações, como Atriz Coadjuvante, quando, claramente, seu papel é principal. A decisão vai valer a pena, pois a categoria está tão fraca nesse ano que ela é a clara favorita.

    No mais, ansiosa para assistir a este filme.

  2. Meu amigo, poucas vezes discordei tanto de uma opinião sua do que quanto às opções do Washington. Seria, aliás, teatro filmado se ele optasse por longos planos apostando na encenação no quadro, mas ele vai além e escolhe construir um discurso próprio através das opções de corte e enquadramento que vão gradualmente mostrando a desintegração daquelas pessoas – é justamente a opção pelo corte que permite essa leitura à medida que o filme .

    O filme usa, justamente, os elementos do cenário e a casa para discursar a respeito das relações – e das transformações – dos personagens. Nesse sentido, é brilhante a forma como continuamente os personagens são expostos em enquadramentos oprimidos pelos limites do próprio cenário, em molduras, portas, janelas, becos estreitos, personagens acuados dentro do munto construído por eles, separados pelas escolhas feitas pelo centro do mundo deles, justamente o personagem de Washington, pelas cercas invisíveis que vão muito além da cerca que ele está construindo no jardim. E os cortes nos diálogos exploram a dinâmica das relações entre os personagens, dinâmica essa que se modifica aos poucos, desde um diálogo em diferentes enquadramentos entre 3 personagens, amigável, no início, até opções por demonstrar, pelos cortes e pela forma como enquadra os personagens, que a relação simbiótica que existia no início foi dando lugar a diferenças na forma como os personagens se vêem e se relacionam. Maior prova de que Washington entende a diferença da encenação para cinema é o fato de, na metade final, vermos continuamente personagens separados pelos elementos do próprio cenário, o que só pode ser feito no cinema, uma vez que no teatro cada pessoa na platéia tem uma visão diferente do palco. No cinema, tudo se encena para a câmera, e sua posição é que dita as relações de mise-en-scène.
    Fences pode ser tudo, menos pouco criativo na direção. Mise-en-scène é uma arte nascida do palco, e aqui longos planos seriam apenas uma longa filmagem das relações no palco. O filme consegue suplantar isso para criar sua própria forma de dialogar.

    Abração velho

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