Resenha Crítica | Até o Último Homem (2016)

Hacksaw Ridge, de Mel Gibson

Não há nome em Hollywood que pagou mais caro pela sucessão de erros que Mel Gibson. A princípio uma promessa vinda do cinema australiano e depois um dos artistas mais queridos em Hollywood, Gibson alçou voos ainda mais altos na escolha em também seguir uma carreira como diretor, primeiro de modo tímido com “O Homem Sem Face” e depois provocando estrondos com “Coração Valente”, o grande vencedor do Oscar 1996.

O astro seguiu uma trajetória sem abalos até “Apocalypto”, derrapando após o seu lançamento em uma exposição de ações de sua vida particular bem comprometedoras, seja por seus comentários antissemitas, seja pela agressão a uma de suas esposas, a russa Oksana Grigorieva. Exceto pelas participações em filmes de ação vagabundos como “Plano de Fuga”, “Machete Mata”, “Os Mercenários 3” e “Herança de Sangue”, ninguém mais desejou ter o seu projeto vinculado a Mel Gibson, com ele inclusive chegado ao ponto de assinar a direção de arte do chinês “The Bombing” para não ficar sem ocupação.

O levantamento de todo esse histórico é essencial para justificar o quão importante “Até o Último Homem” é para a ressurreição de um talento que parece finalmente encontrar um meio de se desculpar a partir do fazer cinematográfico, enaltecendo Desmond T. Doss, uma figura real, como um recurso para estabelecer uma espécie de pacificação até mesmo no mais horrendo dos conflitos humanos. Pelo visto, a tentativa foi muito bem recepcionada, como sugere as seis indicações que a produção acaba de receber ao Oscar, incluindo Melhor Filme e Melhor Direção.

Mesmo crescendo em um lar destrutivo, Doss (Andrew Garfield) ainda assim não se permitiu a herdar o temperamento selvagem de seu pai Tom (Hugo Weaving), um veterano de guerra que vivia de incentivar conflitos entre Doss e seu irmão e de violentar a sua esposa Bertha (Rachel Griffiths). A razão de sua bondade vem por corresponder aos preceitos da Igreja Adventista do Sétimo Dia, que, acima de tudo, sempre se negou ao incentivo do combate entre homens. Pois a provação de Doss vem justamente a de rejeitar o uso de armas ao se alistar para ser um socorrista na Segunda Guerra Mundial, função que somente poderá exercer armado.

Mel Gibson estabelece perfeitamente o vínculo entre os dois momentos opostos que existem em “Até o Último Homem”. A princípio, confere muita ternura especialmente no romance que cresce entre Doss e a enfermeira Dorothy (Teresa Palmer), nada devendo diante à história arrebatadora entre o seu William Wallace e Murron MacClannough (Catherine McCormack) encenado em “Coração Valente”.

Faz um registro encantador justamente por representar o tradicionalismo do típico amor em tempos de guerra e por ser tão distante do horror no qual Doss se vê inserido a partir da segunda metade de “Até o Último Homem”, primeiro pelo desrespeito de seus colegas de batalha, que não toleram a sua resistência em eliminar o inimigo, e depois pelos corpos estilhaçados que tingirão toda a tela de sangue. Horror este também testemunhado em “Coração Valente” e em outras das obras de Gibson, comprovando a sua perícia em captar uma ação visualmente assombroso exatamente como deve ser.

Ir adiante configuraria em revelar a diferença extraordinária que Doss operou nesse cenário. Trata-se de uma figura extremamente cativante justamente pela luta em sustentar aquilo que acredita sem jamais defender uma posição de superioridade diante dos demais soldados que matam e morrem por uma vitória. Uma composição luminosa de Andrew Garfield que nenhum integrante do extraordinário elenco de apoio australiano é capaz de ofuscar. Que me perdoe o favoritismo de Casey Afleck por “Manchester à Beira-Mar”, mas os prêmios de interpretação masculina do ano deveriam ser todos destinados a Garfield.

Data:
Filme:
Até o Último Homem
Avaliação:
4
Sobre Alex Gonçalves
Editor do Cine Resenhas desde 2007, Alex Gonçalves é estudante de Jornalismo e viciado em música, fotografia, leitura e escrita. Mais informações na página "Sobre".

2 Comentários em Resenha Crítica | Até o Último Homem (2016)

  1. Gosto muito de Mel Gibson e admiro a humildade dele em se recolher para enfrentar seus problemas. Para mim, este é o grande retorno do ano!

    Também gosto muito de Andrew Garfield, um ator talentoso, que, finalmente, tem recebido o reconhecimento que merece – ainda mais depois de toda a controvérsia que levou à sua demissão da franquia “Homem-Aranha”.

    Tendo dito isso, tenho a melhor das expectativas em relação a “Até o Último Homem”. Gibson gosta dessas histórias e desses herois humanos, gente como a gente. Deve ser um filme bem bonito!

    • Kamila, tive acesso aos seus tweets antes de responder ao seu comentário e vi que você adorou o resultado. Que bom saber que estamos no mesmo time. Particularmente, é o meu favorito na disputa ao Oscar de Melhor Filme.

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