Os Indicados ao Oscar 2017 de Melhor Filme Estrangeiro

Ao contrário de alguns colegas mostreiros, não consegui opinar imediatamente sobre a seleção de longas finalistas na categoria do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Com exceção de “Toni Erdmann”, todos foram exibidos na última edição da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Só pude encaixar “O Apartamento” em minha programação – a análise integral sobre ele já foi publicada aqui.

Felizmente, a internet existe e tive acesso aos demais títulos no último fim de semana. A conclusão que cheguei é que estamos diante da seleção mais fraca em comparação com edições prévias. Francamente, substituiria quase todos, permanecendo somente com o belo australiano “Tanna”. É uma lástima que o filtro politicamente correto da Academia tenha barrado o francês “Elle“, que sequer chegou entre os semifinalistas. Também provocador, “Morte em Sarajevo” merecia uma chance.

No vídeo a seguir, comentei brevemente sobre os finalistas das categorias principais do Oscar 2017. Abaixo dele, tenha acesso aos meus comentários sobre cada um dos títulos estrangeiros.

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Terra de Minas
Under sandet, Martin Zandvliet

O maior atrativo dessa realização dramática de Martin Zandvliet está em evidenciar que conflitos continuam existindo mesmo com guerras oficialmente acabadas. A premissa é curiosa: poucos dias após o fim da Segunda Guerra Mundial, jovens soldados alemães são mantidos na Dinamarca com a missão de cavarem e desativarem aproximadamente dois milhões de minas que os seus próprios colegas de batalha instalaram.

Em boa parte do tempo, Zandvliet consegue instaurar uma tensão insuportável, sempre à espreita de cada vacilo de manipulação que pode levar um personagem ser levado pelos ares com uma detonação involuntária. Já como roteirista, chega a promover uma inversão de papéis desonesta, tratando dinamarqueses com uma truculência enojante enquanto os “pobres” adolescentes são purificados, como se não guardassem nenhum resquício de uma ideologia nazista.

Ainda neste ano, o realizador debutará na América com “The Outsider”, também centrado em um período pós-Segunda Guerra Mundial. Nele, Jared Leto faz Nick Lowell, G.I. que ingressa a yakuza.

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Um Homem Chamado Ove
En man som heter Ove, de Hannes Holm

Desde a cinessérie “Millennium” que os americanos não compareciam de modo expressivo para assistirem a um filme sueco na tela grande. Com mais de 3,3 milhões em rendimentos, um feito impressionante para qualquer filme estrangeiro a passar em um país tão aficionado quanto o nosso pela dublagem, “Um Homem Chamado Ove” era uma barbada como finalista ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

Vivido pelo ótimo Rolf Lassgård, o personagem-título é um desses idosos de mal com a vida. De tão ranzinza, é capaz de interromper o próprio suicídio só para dar bronca em um de seus vizinhos. Mas a doçura já habitou esse homem, como demonstra os flashbacks de sua juventude, onde é vivido por Filip Berg.

As similaridades dessa realização de Hannes Holm com “Diário de Um Maquinista”, este o representante da Sérvia que acabou não indo muito longe na corrida pela estatueta dourada, são por vezes gritantes. Mesmo com o déjà-vu, não há como negar uma graciosidade presente em um filme que humaniza o seu protagonista não pela sua capacidade de devoção a um amor que já partiu, como também a de se reconhecer como um agente de mudança no ambiente em que vive. Craques indicados ao Oscar por “O Centenário Que Fugiu Pela Janela e Desapareceu”, Eva Von Bahr e Love Larson são novamente lembrados na categoria de Melhor Maquiagem por outro esforço de envelhecimento impressionante.

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Toni Erdmann
Toni Erdmann, de Maren Ade

No primeiro ato muito bem resolvido de “Toni Erdmann”, a cineasta e roteirista alemã Maren Ade já deixa evidente que pretende tratar da dinâmica entre pai e filha com o maior número possível de excentricidades. Workaholic, Ines (a excelente Sandra Hüller) recebe a visita sem aviso prévio de seu pai (Peter Simonischek), sujeito que vive de disfarces e aplicar prendas que vai tumultuar a partir de pequenas ações ou omissões o cotidiano atarefado e regrado da filha.

Favorito ao Oscar, “Toni Erdmann” parece ter fisgado a quase todos justamente por pincelar com estranhezas um registro que certamente ressoaria piegas caso idealizado por mentes criativas mais esquemáticas. Mas o resultado não é tudo isso, sobretudo por um segundo ato disperso em ações e reações que pouco condizem com o perfil então exibido de Ines.

O controle só é retomado com uma performance inusitada de “Greatest Love Of All” e depois com uma celebração de aniversário de causar um desconforto como pouco se testemunha no cinema. São circunstâncias em que as intenções de “Toni Erdmann” soam mais coerentes e honestas.

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O Apartamento +
Forushande, de Asghar Farhadi

Com tantos filmes de outras nacionalidades tendo uma premissa similar, a exemplo de “Paulina”, “Elle” e especialmente “O Silêncio do Céu”, esperava-se que “O Apartamento” fosse mais incisivo em sua observação sobre os comportamentos que permeiam o íntimo das mulheres ao serem violadas. Em um ângulo geral, a produção não contribui muito para o debate e, fora dele, não representa um passo adiante para Farhadi, então superando a si mesmo a cada nova obra.

Por um lado, “O Apartamento” descarta as estruturas convencionais de um mistério já deixando todas as pistas expostas para ir ao encontro do agressor. Por outro, uma predileção pela perspectiva masculina do contexto é mais perceptível, reservando em poucas ocasiões a condição de Rana em um cenário em que a mulher é secundária mesmo em situações em que seus anseios deveriam ser priorizados. Uma escolha que converge em um estrondo final sem todas as rachaduras pretendidas.

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Tanna
Tanna, de Bentley Dean e Martin Butler

Com a norma que desqualifica produções faladas em inglês na categoria de Melhor Filme Estrangeiro, a Austrália sempre teve apuros em encontrar um representante, conseguindo somente em 10 ocasiões submeter alguma de suas produções. Pois as chances de conseguir a estatueta finalmente chegaram com “Tanna”, que vem a ser a melhor obra desse grupo seleto.

Falado integralmente em nauvhal, língua da República de Vanuatu, a produção é quase uma pesquisa antropológica da dupla Bentley Dean e Martin Butler, por vezes fascinando por representar tão bem o tradicionalismo e a rivalidade entre tribos sem deixar de pensar em imagens de apelo cinematográfico, como as maravilhosas tomadas do casal feito por Mungau Dain e Marie Wawa (que de fato habitam a ilha de Tanna) diante de um vulcão. Os ecos shakespearianos conferem ainda mais densidade a um contexto em que a segurança de um coletivo precisa ser priorizado em detrimento das escolhas individuais.

Sobre Alex Gonçalves
Editor do Cine Resenhas desde 2007, Alex Gonçalves é estudante de Jornalismo e viciado em música, fotografia, leitura e escrita. Mais informações na página "Sobre".

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