Resenha Crítica | A Jovem Rainha (2015)

The Girl King, de Mika Kaurismäki

.:: 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

Mesmo que a emancipação feminina tenha de fato se efetivado no penúltimo século, no qual as mulheres encontraram outros papéis para desempenhar na sociedade simultâneo ao desejo de equiparação com os homens principalmente como profissionais e eleitoras, há em um passado distante outros modelos do gênero que se liberaram de uma série de amarras mesmo dentro das convenções. Para tanto, a ficção desempenha uma função importante para o estudo dessas figuras.

De certo modo, isso vem a ser o ponto mais fascinante de “A Jovem Rainha”, realização falada em inglês do finlandês Mika Kaurismäki. Com cunho claramente feminista, a história para muitos desconhecida da Cristina da Suécia (1626-1689) recebe uma série de intervenções sem necessariamente dissipar a importância de episódios fundamentais de sua biografia, como um contorno mais atrevido em seu comportamento impositivo ou mesmo em seu apetite sexual há anos oprimido.

Bela ao ponto de não permitir que nossos olhos se distraiam com qualquer outra coisa, a sueca Malin Buska interpreta Cristina da Suécia com fervor após uma introdução que trata de mostrá-la desamparada na infância, tendo ascendido ao trono com apenas seis anos. Perdida nos livros de seu imenso acervo, Cristina amadurece inebriada especialmente pela obra de René Descartes, pai do racionalismo e mentor intelectual para uma rainha que passou a agir ferrenhamente contra a Guerra dos Trinta Anos, arquitetada na Europa a partir do conflito entre católicos e protestantes.

Porém, muito mais que as ações de uma Cristina pública, Kaurismäki, que conta aqui com o roteiro assinado pelo canadense Michel Marc Bouchard (de “Tom na Fazenda”, de Xavier Dolan), também quer desvendar a Cristina privada a partir da relação conflituosa com o chanceler Axel Oxenstierna (Michael Nyqvist, ótimo), que também lhe exerce uma função paternal, e a condessa Ebba Sparre (Sarah Gadon), o grande amor de sua vida. Mesmo a fotografia de Guy Dufaux desempenha um fascínio ao iluminar em excesso um período de trevas, dando tonalidades contemporâneas a uma mulher que hoje só ganha em interesse e pioneirismo.

Data:
Filme:
A Jovem Rainha
Avaliação:
4
Sobre Alex Gonçalves
Editor do Cine Resenhas desde 2007, Alex Gonçalves é estudante de Jornalismo e viciado em música, fotografia, leitura e escrita. Mais informações na página "Sobre".

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