Resenha Crítica | King Cobra (2016)

King Cobra, de Justin Kelly

Ainda na ativa, o americano Brent Corrigan foi encarado como uma verdadeira revelação na indústria pornô há mais de 10 anos. Mesmo novato, o rapaz não demonstrava nenhuma inexperiência diante das câmeras, lidando com produções um tanto hardcores com astros veteranos. No entanto, há algo de obscuro em sua biografia, um borrão concentrado justamente em seus primeiros passos como ator pornô.

Realizado logo após “I Am Michael”, relato sobre o ativista homossexual Michael Glatze que se converteu em um pastor homofóbico, Justin Kelly cobre em “King Cobra” justamente essa etapa em que Brent Corrigan ainda era desconhecido, encontrando em filmes pornográficos gays uma possibilidade para exercer as habilidades desenvolvidas durante uma graduação em cinema, buscando uma estabilidade para posteriormente fortalecer o estrelato também como diretor e produtor.

Nesta época, Brent, que é interpretado por Garrett Clayton, teve a sua primeira chance de ouro ao ser descoberto por Stephen (Christian Slater, excelente), sujeito que usa o trabalho de fotógrafo de assuntos familiares como camuflagem para o estúdio pornográfico que sustenta com produções online, um sucesso em tempos em que o download não pago ainda não era um costume por consumidores que privilegiam seu anonimato. Mesmo com uma cartela vasta de atores, Brent acaba se transformando em seu carro-forte, dando início a um jogo antes amoroso e adiante manipulativo.

Porém, as verdadeiras perversões da indústria são integralmente exibidas com o foco em Harlow (Keegan Allen) e Joe (James Franco), dois amantes e sócios de uma empresa falida por suas extravagâncias que querem trazer Brent a bordo para multiplicar os seus clientes. Como se sucedeu na vida real, o encontro entre essas duas duplas acarretará em uma série grave de consequências.

Com exceção de James Franco, em mais uma de suas interpretações intrusivas e narcisistas, todo o elenco corresponde ao desafio de elucidar os meandros da pornografia mesmo não se entregando ao conteúdo explícito que a sustenta. Parece até mesmo existir um comentário tanto na escalação do ex-astro da Disney Garrett Clayton como Brent quanto nas breves participações de Alicia Silverstone e Molly Ringwald, que no passado serviram de modelos comportamentais ao estrelarem comédias teens.

Ainda assim, mesmo incorrendo a uma condução que pode ser confundida com a de uma produção televisiva, Justin Kelly acerta mesmo é em flagrar um tema proibido com um olhar especialmente atento ao lado podre do prazer, como se proporcioná-lo estivesse diretamente associado ao desejo por um poder imediato sobre aqueles que o consomem e o produzem, por vezes efetivando-o com um crime.  

Data:
Filme:
King Cobra
Avaliação:
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Sobre Alex Gonçalves
Editor do Cine Resenhas desde 2007, Alex Gonçalves é estudante de Jornalismo e viciado em música, fotografia, leitura e escrita. Mais informações na página "Sobre".

2 Comentários em Resenha Crítica | King Cobra (2016)

  1. Gosto demais do Garrett Clayton em “King Cobra”. Ele realmente se transformou em Brent Corrigan. O problema é que o filme não dá conta do potencial dramático da história: pouco se sente o impacto da descoberta da pornografia na vida de um jovem que parecia não ter auto-estima, o crime perde toda a força porque James Franco, como você disse, surge narcisista (e eu acrescentaria descontrolado, claramente em outro filme) e é somente na última cena que, de fato, o filme finalmente mostra, com alguma dose de curiosidade, os bastidores de uma produção dessa indústria. Uma grande oportunidade desperdiçada!

    • Matheus, sinto que esse impacto desejado da pornografia na vida do personagem não é muito sentida justamente por ele ter entrado nessa mais por vontade própria do que por imposição das circunstâncias. E embora eu concorde com todos os pontos de seu comentário, ainda assim consigo ver com bons olhos outros aspectos de como a história é narrada, muito talvez pela forma como o Christian Slater se entrega em uma das perspectivas dela. E você já viu o I Am Michael, também do Justin Kelly?

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