Resenha Crítica | Versões de Um Crime (2016)

The Whole Truth, de Courtney Hunt

A americana Courtney Hunt teve uma estreia como diretora e roteirista não menos que notável com “Rio Congelado”, drama de 2008 produzido com somente 1 milhão de dólares que possibilitou à Melissa Leo um reconhecimento mundial a partir de sua indicação ao Oscar de Melhor Atriz pelo papel de uma mulher castigada pelas circunstâncias que luta para dar uma vida digna aos dois filhos que teve com um homem que a abandonou. Mesmo ainda hoje lembrado, a produção independente não rendeu à Hunt novas oportunidades, tendo exercido o seu talento atrás das câmeras posteriormente somente em três episódios de “Em Terapia” e em dois de “Lei e Ordem: Unidade de Vítimas Especiais”.

Lamentavelmente, o caso de Hunt é parecido com o de outras colegas como Audrey Wells (“Sob o Sol da Toscana”), Christine Jeffs (“Chuva de Verão”) e Tamara Jenkins (“A Família Savage”), que sumiram do mapa após pequenos grandes feitos como diretoras autorais em seus primeiros passos. Em “Versões de Um Crime”, restou à Hunt o ingrato trabalho de lidar com algo que claramente nenhuma sintonia encontra com o talento demonstrado previamente, conduzindo uma narrativa sem qualquer personalidade.

Ramsey (Keanu Reeves, substituindo Daniel Craig) é o advogado da família formada por Boone (Jim Belushi), Loretta (Renée Zellweger) e Mike (Gabriel Basso). Logo no início da história, sabemos que Boone foi assassinado e Mike, o seu filho, não faz nenhuma cerimônia em admitir o crime, embora tenha estabelecido desde então um voto de silêncio. Com dificuldades em fazer a sua defesa, Ramsey acaba aceitando a contribuição de Janelle (Gugu Mbatha-Raw, em um papel parecido com o qual interpretou no excelente “Armas na Mesa”), filha de um influente advogado.

Enquanto acompanhamos as declarações das testemunhas, flashbacks reforçam cada palavra expressa, criando uma ilusão de que todos ali estão sustentando versões fantasiadas dos fatos. Portanto, a garantia de que Mike será acusado por crime em primeiro grau se transforma em dúvida, uma vez que parece existir uma motivação bem reveladora para justificar um crime familiar tão brutal e polêmico.

Em um momento em que seriados na linha de “Divisão Criminal” e “The Good Wife” deixaram um legado com um sem número de casos judiciais, complicou para o cinema produzir filmes que mantenham o foco do espectador ao alongar os desdobramentos de apenas um crime nos tribunais. É uma constatação que enfraquece “Versões de Um Crime” já em seu primeiro ato, mesmo contando com o pedigree da assinatura de Nicholas Kazan no roteiro, nome responsável pelo já clássico “O Reverso da Fortuna”.

Porém, muito mais que genérico e com interpretações no piloto automático de todo o elenco, “Versões de Um Crime” incorre ao risco de atirar pela janela tudo o que construir em favor de um ato final que busca surpreender ao exibir as verdadeiras faces dos personagens. Assim, o que soava como uma explanação sobre um ato de violência sendo abafado por outro ato de violência perde toda a sua credibilidade e coerência por um movimento estratégico que exibe a presunção de um texto em demonstrar uma esperteza patética o suficiente para ser antecipada a milhas de distância.

Data:
Filme:
Versões de Um Crime
Avaliação:
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Sobre Alex Gonçalves
Editor do Cine Resenhas desde 2007, Alex Gonçalves é estudante de Jornalismo e viciado em música, fotografia, leitura e escrita. Mais informações na página "Sobre".

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