Resenha Crítica | Fragmentado (2017)

Split, de M. Night Shyamalan

Desacreditado pelos grandes estúdios e até mesmo por alguns de seus fãs hardcores, M. Night Shyamalan teve um momento muito difícil após o fracasso da ficção científica “Depois da Terra”, o último prego de um caixão que poderia sepultar para sempre a carreira de um diretor exaltado em seu ápice como o novo Steven Spielberg. Depois de parar de enganar a si mesmo de que tudo não passava de uma consequência da perseguição da crítica especializada, o indiano restabelece uma conexão mais honesta com a sua habilidade em criar bons mistérios.

Bancado do próprio bolso, “A Visita” foi uma evidência de retorno à boa forma, contando com a confiança de Jason Blum, um produtor de filmes baratos de terror, para pregar algumas surpresas com uma história em que a sua própria casa serve de cenário principal. Pois “Fragmentado”, que chega agora aos cinemas brasileiros após faturar mais de 135 milhões de dólares somente nos Estados Unidos contra um orçamento de 9 milhões, é um passo adiante de um talento que quase se perdeu.

Embora protagonista, James McAvoy interpreta um papel que depende de duas perspectivas de terceiros para se construir. A primeira é de Karen Fletcher (a excelente veterana Betty Buckley, com quem Shyamalan trabalhou em “Fim dos Tempos”), psiquiatra há anos que desenvolve com ele uma solução permanente para que encontrar alguma ordem dentro das 23 personalidades que já apresentou. Nas sessões, quem assume o controle (ou a “luz”) é Barry, um aspirante a designer de moda.

Já as demais faces desse homem são conhecidas por Casey (Anya Taylor-Joy), Claire (Haley Lu Richardson) e Marcia (Jessica Sula), três amigas adolescentes que são sequestradas por ele quando é Dennis, fanático por limpeza que vive nos cômodos do subsolo de onde atua como líder de manutenção. Enquanto estudam meios de se livrarem do cárcere, Dennis dá lugar para outras personalidades, como a do garoto de 10 anos Hedwig e da controladora Patricia.

Como o esperado, Shyamalan opera a partir dessa premissa com os elementos do horror psicológico, exigindo a paciência do espectador para compreender personagens, suas motivações e traumas em detrimento de uma ameaça física e explícita, esta reservada para um outro estágio da narrativa. Exatamente por isso, é Casey a figura que aos poucos passa a ser o coração que pulsa “Fragmentado”.

Ainda melhor que em “A Bruxa”, Anya Taylor-Joy compreende perfeitamente as nuances de Casey, tornando por vezes dispensáveis o uso de alguns flashbacks que preenchem as lacunas sobre o seu passado e inadequações. É uma criação singular de Shyamalan para inserir em um campo em que ela se vê como uma criatura acuada diante de bestas em suas mais diversas representações. Desde “A Vila”, em que a fábula sobre isolamento ganha na contemporaneidade americana um sentido ainda mais crível com todos os seus muros e temor por estrangeiros, que Shyamalan não entregava algo tão relevante e assustador.

Data:
Filme:
Fragmentado
Avaliação:
4
Sobre Alex Gonçalves
Editor do Cine Resenhas desde 2007, Alex Gonçalves é estudante de Jornalismo e viciado em música, fotografia, leitura e escrita. Mais informações na página "Sobre".

1 Comentário em Resenha Crítica | Fragmentado (2017)

  1. Faz tempo que Shyamalan não chama a atenção com os seus filmes, mas eu confesso que, após assistir ao trailer de “Fragmentado”, fiquei curiosa. Achei a história interessante e, a julgar pela sua crítica, parece ser um bom filme.

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