Comentários Sobre a Primeira Leva de Filmes da Sessão Vitrine Petrobras

Desde fevereiro acontece a Sessão Vitrine Petrobras, que tem a intenção de ofertar ao público um catálogo bem diversificado da recente cinematografia nacional por um valor mais acessível. Com ingressos vendidos por até R$ 12, cada título é fixado durante duas semanas em uma mesma sala e horário, dando uma trajetória mais segura para produções alternativas constantemente massacradas na disputa por um espaço no circuito comercial.

A seguir, comento sobre cinco filmes assistidos presentes na programação. “A Cidade Onde Envelheço” e “Waiting for B.” já se despediram dos cinemas, enquanto “Jonas e o Circo Sem Lona” pode ser visto até a próxima quarta-feira, 29/3. “O Ornitólogo” e “Divinas Divas”, ambos assistidos no 24º Festival MixBrasil de Cultura da Diversidade, serão as próximas estreias – o documentário de Leandra Leal terá a sua data definida mais adiante.

Para conhecer mais sobre a iniciativa, clique aqui.

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A Cidade Onde Envelheço, de Marília Rocha

Este primeiro longa de ficção de Marília Rocha inicialmente seduz pela perspectiva um tanto estrangeira que confere dentro de uma reconhecível Belo Horizonte, trazendo não somente uma portuguesa, Francisca (Francisca Manuel), adaptada à cidade, como a presença de uma amiga também portuguesa, Teresa (Elizabete Francisca), que está de passagem. Em meio a temas como apego, a cultura de um novo lar e a expectativa para um futuro que nem sempre proporciona os novos ares ambicionados, Rocha consegue incluir o espectador na naturalidade com a qual a relação entre essas duas mulheres se desenha, mesmo em uma narrativa absolutamente desprovida de conflitos.

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Waiting for B., de Abigail Spindel e Paulo Cesar Toledo

Exibido no último Festival MixBrasil de Cultura da Diversidade, este documentário acerca dos fãs que acamparam durante dois meses para assistir ao show da Beyoncé em 2013 no Estádio do Morumbi é daqueles que desfazem qualquer preconceito com jovens com uma devoção extrema por uma artista. Isso acontece porque os codiretores Abigail Spindel e Paulo Cesar Toledo fazem um mapeamento perspicaz da vida privada de cada um deles, inseridos em cenários que nem sempre autorizam que externem quem verdadeiramente são, encontrando em um talento da música uma opção de fuga da realidade. Muito além disso, “Waiting for B.” é extremamente divertido ao acompanhar uma pequena comunidade se formando dentro de uma cabana em que confidências, piadas e demonstrações de amizade são trocadas sem reservas.

+ Entrevista com Abigail Spindel

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Jonas e o Circo sem Lona, de Paula Gomes

Com 13 anos, Jonas Laborda acredita ter herdado no quintal de sua casa as habilidades necessárias para já pensar em uma carreira como artista circense. Paula Gomes acompanha esse garoto no instante em que ele ambiciona algo além de apresentações em que seus amigos são a única plateia, estudando meios de convencer a sua mãe de que está preparado para ingressar um circo itinerante. O que causa estranheza em “Jonas e o Circo sem Lona” é uma tentativa de borrar os limites do documentário, com uma escolha de condução que às vezes o confunde com ficção. Nada parece autêntico, principalmente por soar encenado algo que deveria primar pela veracidade. Só a fala de caráter metalinguístico que fecha o filme proporciona alguma comoção.

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O Ornitólogo, de João Pedro Rodrigues

Desde os seus primeiros curtas, o português João Pedro Rodrigues tem versado de modo espinhoso sobre desejos reprimidos, por vezes os explorando com um interesse antropológico. Ornitólogo do título, Fernando (o francês Paul Hamy) acaba tendo um acidente durante uma expedição, sendo resgatado por duas garotas chinesas perdidas que aos poucos demonstram intenções que levam a trama para caminhos obscuros. Uma sexualidade mais explícita passa a se misturar com um misticismo que deve fazer muito sentido para o seu realizador, homossexual e ateu convicto. Já o resultado prático soa desconexo e aborrecido até para quem acompanha com uma curiosidade bizarra algo como “O Fantasma”, exemplar que rendeu a Rodrigues um reconhecimento mundial.

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Divinas Divas, de Leandra Leal

Uma das melhores e mais versáteis atrizes do cinema brasileiro, Leandra Leal faz de “Divinas Divas” o seu debute na direção. Algo que não cumpre por mero capricho, pois a história que está compartilhando repercute intrinsecamente em sua vida privada e trajetória profissional. Trata-se de redescobrir as Divinas Divas, grupo de artistas travestis que estouraram a partir dos anos 1960 e que receberam no palco do Teatro Rival (do avô de Leandra, Américo Leal) uma de suas primeiras chances. São figuras cheias de personalidade com as quais Leandra nem sempre consegue dar conta de lidar, algo que não reduz a sua sensibilidade em prestar um tributo merecido à Rogéria, Jane Di Castro, Divina Valéria, Camille K, Eloína dos Leopardos, Fujika de Halliday, Brigitte de Búzio e Marquesa, que faleceu após as gravações.

+ Entrevista com Leandra Leal

Sobre Alex Gonçalves
Editor do Cine Resenhas desde 2007, Alex Gonçalves é estudante de Jornalismo e viciado em música, fotografia, leitura e escrita. Mais informações na página "Sobre".

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