Resenha Crítica | Silêncio (2016)

Silence, de Martin Scorsese

Já levado ao cinema pelo cineasta Masahiro Shinoda em 1971, o livro “O Silêncio”, de Shûsaku Endô, era um dos projetos dos sonhos de Martin Scorsese, tendo desenvolvido em parceria com Jay Cocks os primeiros esboços do roteiro há mais de 20 anos. Muito mais do que a dificuldade de levantar o orçamento (algo em torno dos 45 milhões de dólares, um valor razoável dentro do que Scorsese ultimamente trabalha), o seu “Silêncio” também foi alvo de inúmeros adiamentos e de conflitos com o estúdio Paramount, encerrando aqui o contrato com o cineasta.

O apego excessivo pelo processo de pós-produção fez com que “Silêncio” sofresse consequências severas em seu lançamento. Além do fiasco de bilheteria, com faturamento risível de 7 milhões de dólares nos Estados Unidos, a produção sequer foi lembrada na última award season, sendo apresentado com atraso para os votantes de associações e sindicatos, resultado somente em uma menção ao Oscar de Melhor Fotografia.

Inspirando-se em figuras reais, Shûsaku Endô construiu “O Silêncio” como uma espécie de diário, com longos capítulos escritos como relatos deixados em manuscritos do século XVII. Como filme, essa subjetividade respira por narrações em off pontuais e certa complacência do próprio Scorsese por um credo do qual compartilha.

Rodrigues e Garupe (Andrew Garfield e Adam Driver, em papéis originalmente pensados para Gael García Bernal e Benicio Del Toro) são dois missionários intrigados com o destino do Padre Ferreira (Liam Neeson, substituindo Daniel Day-Lewis), há um ano desaparecido no Japão. Com a autorização do Padre Valignano (Ciarán Hinds), iniciam uma expedição em busca de seu paradeiro, enfrentando todos os riscos de serem descobertos em uma nação absolutamente intolerante com a fé católica.

Encarados como apóstolos de Jesus Cristo, Rodrigues e Garupe logo testemunham as consequências de estenderem os seus ensinamentos, com devotos sendo encaminhados à Nagasaki para serem exterminados com os métodos mais cruéis imagináveis. Mas será Rodrigues quem realmente experimentará as maiores provações de uma verdadeira via-crúcis.

Não há aqui qualquer sutileza em aproximar o protagonista de um ser divino sobre a Terra, deixando em seu encalço inclusive Kichijiro (Yôsuke Kubozuka), um pescador que presta serviços como guia com todas as características de um Judas Iscariotes. Também caricatural é a figura do Inquisitor (Issey Ogata), com moscas o rondando enquanto discursa sobre o seu impedimento de enraizamento de uma crença ocidental.

É por essas e outras que “Silêncio”, afora os seu primoroso empenho técnico, soa no mínimo inadequado, tratando sobre a intolerância religiosa com dilemas mal ajambrados. Não faltam ao filme comentários sobre uma idolatria ao divino que involuntariamente recai em uma devoção ao homem ou mesmo a infiltração de uma vantagem comercial do que se autodenomina como um bem-estar social ao indivíduo. Entretanto, Scorsese não se nega a enaltecer Rodrigues, mesmo que para isso se furte de prestar alguma solidariedade ao sem número de pobres camponeses sacrificados pelos tormentos de seu “herói”.  

Data:
Filme:
Silêncio
Avaliação:
3
Sobre Alex Gonçalves
Editor do Cine Resenhas desde 2007, Alex Gonçalves é estudante de Jornalismo e viciado em música, fotografia, leitura e escrita. Mais informações na página "Sobre".

1 Comentário em Resenha Crítica | Silêncio (2016)

  1. Achei “Silêncio” um filme muito bonito. Uma obra sobre a relação íntima e particular que o homem possui com a sua fé. Um filme sobre o fato de que o silêncio pode ser, sim, uma maneira de prece, de amor, de solidariedade e de provação. Fiquei, particularmente, impressionada com a parte técnica do longa e com as atuações de Garfield e de Driver. Acho até que o Andrew deveria ter sido indicado – e vencido – por esse filme.

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