Resenha Crítica | Big Little Lies (2017)

Big Little Lies, criada por David E. Kelley e dirigida por Jean-Marc Vallée

Publicado em 2014, “Pequenas Grandes Mentiras” inicia com um recurso cada vez mais comum em histórias centradas em um mistério: a antecipação de um clímax envolvendo uma situação em que há um personagem que matou e um outro que morreu. Porém, muito mais do que flagrar todos os meandros que levaram a uma solução tão radical, a escritora Liane Moriarty ainda estabelece um jogo de aparências, na qual há algo de muito podre além das fachadas de suas ricas protagonistas.

“It’s a beautiful life” (“é uma bela vida”) é a frase que estampa as artes promocionais da minissérie dividida em sete capítulos “Big Little Lies”, com a letra f despencando da palavra life. Pois é a mentira que pauta algumas das decisões de Madeline (Reese Witherspoon), Celeste (Nicole Kidman) e Jane (Shailene Woodley), as três protagonistas de uma história que perde o humor negro de sua origem para privilegiar a densidade em um relato sobre sobre as mulheres modernas e os dilemas que enfrentam diariamente em vidas descritas como perfeitas pelos olhares alheios.

Depois de um prólogo que esclarece que algo acabará muito mal, a trama retrocede a partir do momento em que Madeline conhece Jane, uma mãe jovem e solteira nova em uma cidade com um número pequeno de habitantes em que quase todos têm alto poder aquisitivo. Ela estaria tentando recomeçar do zero, mas um infortúnio já a atormenta no primeiro dia de aula de seu filho Ziggy (Iain Armitage): Amabella (Ivy George), a filha única de Renata (Laura Dern), afirma ter sido vítima de bullying, apontando o dedo para Ziggy quando questionada sobre quem tentou sufocá-la.

Melhor amiga de Madeline, Celeste também tem filhos matriculados na mesma escola, os gêmeos Josh e Max (Cameron e Nicholas Crovetti), e abdicou de advogar para se ocupar como dona de casa por exigência do seu marido Perry (Alexander Skarsgård), sujeito que logo revelará uma instabilidade perigosa cuja rotina é fazer viagens a trabalho. Outra mulher a orbitar neste contexto é Bonnie (Zoë Kravitz), a atual companheira de Nathan (James Tupper), ex-marido de Madeline, esta agora casada com Ed (Adam Scott), que consolidou uma empresa de criação de sites.

A princípio, os pobres filhos dessas mulheres parecem modelados para serem reprises de suas versões mais ideais, mas logo se impõe uma tensão entre todas, geradas a partir de um âmbito particular marcado por casamentos insatisfatórios, puladas de cerca, segredos do passado e até mesmo estupro e violência doméstica. Sai assim do campo de meras artificialidades da vida burguesa para adentrar em camadas imperfeitas (quando não obscuras) de cada família.

Foi graças ao empenho de Nicole Kidman e Reese Witherspoon que “Big Little Lies” ganhou formas, com ambas obtendo os direitos do livro de Moriarty e propondo para a HBO uma adaptação em modelo de minissérie limitada. É uma conjunção de forças que inspira inclusive o trabalho de Jean-Marc Vallée, escolhido para conduzir o projeto de cabo a rabo a partir do texto de David E. Kelley sem abrir mão de uma sensibilidade somente presente nos melhores realizadores com uma voz autoral.

Além de ter uma perícia singular para desenvolver o drama que cada uma dessas mulheres vive entre quatro paredes, como a constatação em terapia de que Celeste não se reconhece como vítima em uma círculo vicioso de brutalidade, os impulsos irracionais de Madeline e o deslocamento de Jane em um cenário em que nada tem em comum, Vallée é notável nas representações visuais e em sua participação na montagem, cheia de fragmentos que exercem uma função muito mais completa do que a da palavra expressa.

Com tudo isso contido em um projeto concebido para a tevê mas pensado como cinema, Vallée ainda insere camadas adicionais em suas personagens quando estas passam a adotar finalmente uma postura mais racional em meio a turbulência. E isso vem em uma conclusão com uma possibilidade de reconciliação entre essas mulheres, selando um pacto para combater um risco muito mais importante de ser exterminado do que as suas diferenças.

Data:
Filme:
Big Little Lies
Avaliação:
4
Sobre Alex Gonçalves
Editor do Cine Resenhas desde 2007, Alex Gonçalves é estudante de Jornalismo e viciado em música, fotografia, leitura e escrita. Mais informações na página "Sobre".

2 Comentários em Resenha Crítica | Big Little Lies (2017)

  1. Não tenho HBO e nem tenho costume de baixar seriados para assistir, então não assisti a “Big Little Lies”, mas espero ter a oportunidade de assistir, pois adoro a Nicole e a Reese. Além disso, David E. Kelley sempre se destaca na produção e roteiro de seriados. Gosto do trabalho dele!

Follow

Get every new post on this blog delivered to your Inbox.

Join other followers: