Resenha Crítica | Vermelho Russo (2016)

Vermelho Russo, de Charly Braun

Geralmente associada ao glamour, ao apelo da imagem, a profissão do intérprete se prova muitas vezes emocionalmente desgastante. Isso acontece principalmente pela necessidade de inibir questões de natureza particular ao dar vida na ficção a um papel em que se exige um turbilhão de sentimentos que podem se confundir com aqueles já carregados com o ator.

Pode-se dizer que “Vermelho Russo” é um filme que se trata do processo bruto de incorporar outras pessoas, oferecendo ao público um olhar por trás da cortina que flagra uma série de descompassos. Como os experimentados por Martha Nowill e Maria Manoella, duas atrizes de passagem pela Rússia para mergulharem no sistema Stanislavski de interpretação.

Nele, o intérprete busca meios para se transformar em outros indivíduos com maior naturalidade, dos trejeitos até a voz. No entanto, Stanislavski também defendia a preservação do artista, recomendando que estes jamais fizessem uso em abundância de suas fragilidades em favor de um maior alcance dramático.

.

É um impasse inevitavelmente encarado por Martha e Maria, ambas em processo de reciclagem e passando a desenvolver mais intrigas entre elas do que respostas para o que soa como um bloqueio criativo. De um lado, Martha acusa a amiga pela posição de inferioridade em que diz estar por aparentemente juntas decidirem que Maria assumiria em uma encenação o papel de uma mulher reconhecida por sua beleza. Do outro, Maria é abatida pela presença em um ambiente em que é estrangeira e a ambição por grandes papéis.

O diretor Charly Braun já havia com “Além da Estrada”, o seu primeiro longa de ficção, explorado a posição de quem está em uma “terra estranha”. Aqui, ele embaralha ainda mais o estranhamento que isso provoca propondo um experimento em que a linha que separa o verídico da ficção é borrada. Como se percebe, Martha Nowill (que inclusive teve o seu diário de viagem para a Rússia em tempos distintos como base para a elaboração do roteiro) e Maria Manoella emprestam versões de si mesmas e a dúvida sobre o núcleo coadjuvante ter se submetido a esse jogo permanecerá após o rolar dos créditos finais.

Porém, a principal virtude de “Vermelho Russo” é encontrar um ápice em que o espectador seja capaz de se conectar com a história narrada sem necessariamente pertencer ao nicho das artes que se encena. A proposta não é nem um pouco pretensiosa e o seu registro, por vezes documental, encontra a beleza sem necessariamente se prender a cartões-postais. No fim das contas, assim como Martha e Maria, estamos todos inseridos em um tablado em busca de algum equilíbrio.

.

ENTREVISTA COM MARTHA NOWILL E MARIA MANOELLA

Data:
Filme:
Vermelho Russo
Avaliação:
3
Sobre Alex Gonçalves
Editor do Cine Resenhas desde 2007, Alex Gonçalves é estudante de Jornalismo e viciado em música, fotografia, leitura e escrita. Mais informações na página "Sobre".

2 Comentários em Resenha Crítica | Vermelho Russo (2016)

Comente

Follow

Get every new post on this blog delivered to your Inbox.

Join other followers: