Resenha Crítica | Beduíno (2016)

Beduíno, de Julio Bressane

.:: 40ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

Em tom lamurioso, Julio Bressane notificou que “Educação Sentimental” provavelmente seria a sua última obra captada em película. Já não há no Brasil laboratórios que viabilizem filmes para atender a qualquer demanda, fazendo o cineasta mergulhar em seus costumeiros devaneios sobre a transparência do filme e a opacidade do digital.

Sem lançamento comercial no país, “Garoto” traduziu bem o impasse do realizador, com imagens que rumam para um norte não encontrado. Pois em “Beduino” tudo funciona bem diferente. Talvez o carioca nunca tenha esbanjado tanta vitalidade quanto aqui, apropriando-se ao máximo das possibilidades narrativas e visuais de algo concentrado em um único cenário ocupado somente por um casal.

Bressane pode continuar a defesa de que “Beduino”, assim como qualquer outro filme com a sua assinatura, sobre nada se trata. Mas o que não falta aqui é substância nos atritos que pautam as inúmeras personificações de Alessandra Negrini e Fernando Eiras. Em comum, as identidades femininas partilham o tom de malícia dos diálogos de natureza literária de Negrini, enquanto as masculinas sinalizam uma inquietação não verbalizada por Eiras.

Outra vez, o velho e o novo confluem. Ele gosta de coisas antigas. Ela é moderna. O corpo de Negrini é matéria para tomadas exuberantes, possíveis pela flexibilidade de um novo suporte – como também o é para ressuscitar “Memórias de um Estrangulador de Loiras”, filme maldito produzido pelo cineasta em exílio em 1971. Um artista plenamente consciente de sua bagagem, encontrando no hoje um meio de prosseguir eloquente e renovado.

Data:
Filme:
Beduíno
Avaliação:
3
Sobre Alex Gonçalves
Editor do Cine Resenhas desde 2007, Alex Gonçalves é estudante de Jornalismo e viciado em música, fotografia, leitura e escrita. Mais informações na página "Sobre".

1 Comentário em Resenha Crítica | Beduíno (2016)

  1. Alessandra Negrini é uma grande atriz. Ela sempre coloca a sua carreira na contramão do óbvio. Admiro isso nela!

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