Resenha Crítica | Melhores Amigos (2016)

Little Men, de Ira Sachs

Muitos realizadores autorais encontram no modo de produção independente a liberdade de dissecar indivíduos vivendo a vida como ela é. Assim, o espectador não é convidado por duas horas para se desligar de suas pendências mundanas fora da sala de cinema, mas sim para enfrentá-las a partir de uma história ficcional preenchida por camadas palpáveis.

Em parceria com Mauricio Zacharias no roteiro, Ira Sachs havia proposto tal reflexo nu e cru da realidade em “O Amor é Estranho” e dá prosseguimento a ele em “Melhores Amigos” com uma questão pouco recorrente inclusive no nicho alternativo: as encruzilhadas em que somos jogados diariamente quando a falta de dinheiro bate à porta. Se antes era um casal homossexual afetado por falta de uma renda, agora é a amizade entre dois garotos que está em jogo.

Filho de Brian (Greg Kinnear), um ator, com Kathy, uma terapeuta (Jennifer Ehle), Jake (Theo Taplitz) se muda com eles para o Brooklyn não somente pelo falecimento de seu avô, mas também pela necessidade de se adequarem a um endereço mais barato, pois o seu pai está há anos com dificuldades de obter papéis fora de pequenas montagens teatrais. Ele imediatamente se dá bem com Tony (Michael Barbieri), que vem a ser o filho de Leonor (a excelente chilena Paulina García, de “Gloria” e “Las analfabetas“), inquilina do térreo do apartamento do avô de Jake, onde funciona a sua loja de roupas.

Um impasse se impõe quando a irmã de Brian, Audrey (Talia Balsam), o pressiona a vender o espaço e dividir o valor obtido, pois o aluguel atualmente pago por Leonor é drasticamente inferior comparado ao mercado. Assim, temos de um lado uma família em uma situação compreensível para garantir uma estabilidade financeira, enquanto do outro há uma mãe solteira que depende exclusivamente de seu pequeno negócio para sobreviver. No meio neste campo de batalha, restam Jake e Tony, que chegam a firmar um voto de silêncio para contrariar os seus pais.

Não há nada de muito especial na encenação de Ira Sachs, que claramente privilegia a força de seu texto aliado à direção de um elenco comprometido com um projeto que custou somente dois milhões de dólares, orçamento levantado com o envolvimento de quase 40 produtores associados, incluindo o brasileiro Rodrigo Teixeira. Uma cumplicidade que se transfere também para os personagens, expondo as suas fraquezas de caráter sem que para isso seja necessário fazer um julgamento intrusivo para que definamos a nossa preferência em um conflito onde não há lados para escolhermos.

Data:
Filme:
Melhores Amigos
Avaliação:
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Sobre Alex Gonçalves
Editor do Cine Resenhas desde 2007, Alex Gonçalves é estudante de Jornalismo e viciado em música, fotografia, leitura e escrita. Mais informações na página "Sobre".

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