A Expansão da Netflix e o Retrocesso do Festival de Cannes

Quando os irmãos Auguste e Louis Lumière exibiram “A Chegada de um Trem à Estação” em 25 de janeiro de 1896, uma mágica aconteceu entre o que era projetado por alguns segundos e os receptores ali presentes: a sensação de que a locomotiva chegando à estação ultrapassaria a tela para atropelá-los. Ali surgia a gênese do que é hoje, para o público, uma das principais razões de se ir ao cinema: a de se apequenar diante da tela grande para emergir em uma experiência audiovisual.

As décadas se passaram e a sala de cinema deixou de ser o lugar exclusivo para se apreciar um filme. Logo os televisores continham em suas programações as transmissões não somente do que se pagava um ingresso para ver, como também das produções destinadas ao consumo doméstico. Mas adiante, as videolocadoras se fortaleceram como uma sobrevida para os filmes, convertidos para o formato VHS após o respeito à janela de exibição.

Já neste século, uma novidade ampliou o leque de possibilidades para se assistir uma obra cinematográfica: o streaming. Agora, com um plano de aluguel ou compra e uma conexão banda larga, o consumidor pode assistir ao que desejar com apenas alguns cliques. Com o sucesso instantâneo desse novo modelo, as videolocadoras foram extintas e o mercado de homevideo estagnou, com o Brasil tendo uma baixa procura pela compra de títulos em formato Blu-Ray.

São consequências esperadas em qualquer processo de evolução, mas a ascensão de um serviço como a Netflix tem sido alvo de críticas severas de quem passou por alguns dos estágios da linha do tempo traçada defendendo a sala como o ambiente sagrado e prioritário para se apreciar um filme. Com um custo mensal por vezes inferior a um ingresso de cinema, um assinante da Netflix tem acesso a um catálogo com inúmeras opções de longas de ficção, documentários, seriados e até mesmo produções exclusivas da plataforma, algumas com um poder de sedução igual ou superior ao da principal estreia da semana no circuito comercial.

Como tentativa de legitimar as suas produções, a Netflix obteve sucesso ao inserir dois de seus “filhos” no Festival de Cannes, “Okja” e “The Meyerowitz Stories”, onde serão exibidos na prestigiada seleção oficial para disputar a Palma de Ouro, o prêmio máximo do evento. Um feito impressionante para uma distribuidora que já havia obtido “Já Não Me Sinto Em Casa Nesse Mundo”, o vencedor do último Festival de Sundance.

Produtores e distribuidores franceses bateram o pé, afirmando que o serviço é o responsável por destruir paulatinamente o cinema e exigindo da curadoria do Festival de Cannes uma medida para combater a intromissão de projetos não destinados às salas grandes. Uma pressão imediatamente acatada, pois o festival já adicionou como impedimento para a sua próxima edição a inscrição de filmes sem acordo de exibição no circuito comercial francês.

 

Produção da Netflix, “Okja” está na competição pela Palma de Ouro no Festival de Cannes

Em coletiva para a imprensa, Pedro Almodóvar, presidente do júri que deliberará sobre os vencedores da edição em curso, demonstrou resistência quanto a escolha de um competidor com  o selo Netflix como vencedor da Palma de Ouro. Em uma exibição matutina de “Okja”, longa de Joon-Ho Bong que estreará na plataforma no fim de junho em dezenas de países, relataram vaias entusiasmadas diante da vinheta da empresa apresentada antes dos créditos iniciais.

Tais reações, somadas a outras externas, demonstram retrocesso do festival e de puristas, com discursos por vezes carregados de interesses essencialmente financeiros ou meramente elitistas. Em tempos em que a produção destinada para as dimensões reduzidas nada devem diante daquilo “pensado para a tela grande” (qualquer exemplar com o selo HBO, as produções alternativas que ganham uma nova chance no streaming após rejeitadas pelos distribuidores), a morte de uma linguagem declarada pelo seu meio de consumo é inconsistente. Por ironia, é uma opção como a Netflix que assegura a oportunidade de se ver produções que ostentam uma distinção como a Palma de Ouro, não vistas inclusive por cinéfilos ferrenhos sem o acesso a grandes cidades que os exibem em circuito limitado.

Em um país em que o custo de se ir ao cinema o transformou em uma alternativa de entretenimento nem sempre compatível com a renda individual, a Netflix vem inclusive para abranger a bagagem de um espectador, ofertando o acesso a títulos ricos em temas, nacionalidades, estilos e culturas particulares. Alvo de tantas transições, o cinema não acabou. E assim continuará, caso modernize o seu acesso e abrace as demais opções que se fortalecem.

Sobre Alex Gonçalves
Editor do Cine Resenhas desde 2007, Alex Gonçalves é estudante de Jornalismo e viciado em música, fotografia, leitura e escrita. Mais informações na página "Sobre".

1 Comentário em A Expansão da Netflix e o Retrocesso do Festival de Cannes

  1. Belo texto, Alex, e te parabenizo por essa reflexão. A resistência da indústria cinematográfica em relação à Netflix é compreensível, tendo em vista o fato de que se trata de um serviço que faz concorrência às salas de cinema e, como você bem disse, a preços mais acessíveis. Acho positivo, inclusive, que a Netflix se aventure produzindo conteúdo próprio, pois dá voz a novos diretores e roteiristas, movimentando a indústria cinematográfica que, inclusive, a critica. O Festival de Cannes está mais do que certo em abrir as portas para este tipo de produção. Se mostra à frente de seu tempo e da indústria na qual está colocada.

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