Resenha Crítica | Comeback (2016)

Comeback, de Erico Rassi

Canto do cisne é como se chama a última obra preparada por um artista antes de sua morte. Em muitos casos, tal projeto derradeiro sintetiza perfeitamente a trajetória de seu autor, como se este tivesse previsto o fim de sua própria existência. Robert Altman certamente não teria outro filme em sua carreira que simbolizasse tão bem um adeus que “A Última Noite” e David Bowie partiu momentos antes do lançamento de “Blackstar”.

Pois o fenômeno também pode ser visto no último trabalho de um intérprete célebre e Nelson Xavier, que faleceu em 10 de maio, tem em “Comeback” o seu último trabalho no cinema. De algum modo, esse faroeste à brasileira faz um dueto impecável com “A Despedida”, drama produzido em 2014 e lançado comercialmente somente no ano passado.

Aqui, o grande ator é Amador, um senhor que vive de lucros obtidos com a instalação de máquinas caça-níqueis em botecos. Já bem antes do atual ofício, Amador diz ter sido o pistoleiro que escandalizou Goiás, contratado para a execução desde bandidos locais até a chacina em bailes noturnos. São crimes arquivados em seu álbum repleto de recortes de jornais, mas que nem todos lhe conferem credibilidade.

O elo fraco da narrativa vem a ser o personagem interpretado por Marcos de Andrade, jovem sobrinho de um antigo parceiro de crime (Everaldo Pontes) de Amador e potencial aprendiz que o persegue para ajudá-lo com brutalidade em situações de impasse. É a velha relação entre homens de gerações distintas inevitável em premissas como a de “Comeback”, na qual o também roteirista Erico Rassi não opera muitos progressos.

Faz bem melhor em outros dois aspectos. O primeiro são os diálogos um tanto tarantinescos, em que negociações banais são estendidas até surtirem efeitos cômicos, como naquele em que Amador discute a porcentagem que um comerciante vai receber caso instale um caça-níquel. O outro, muito mais importante, é captar o protagonista com instintos adormecidos, provocando-o até a chegada de um terceiro ato que causará espanto com a crueza de sua violência. Virtudes que Nelson Xavier corresponde com uma nova (e última) interpretação excelente, amparada pela economia de gestos e por olhares ao mesmo tempo serenos e matadores.

Data:
Filme:
Comeback
Avaliação:
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Sobre Alex Gonçalves
Editor do Cine Resenhas desde 2007, Alex Gonçalves é estudante de Jornalismo e viciado em música, fotografia, leitura e escrita. Mais informações na página "Sobre".

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