Resenha Crítica | Um Tio Quase Perfeito (2017)

Um Tio Quase Perfeito, de Pedro Antonio

Um aspecto altamente subestimado e que muitas vezes justifica a popularidade da comédia brasileira vem a ser a identificação do público com histórias em que o nosso abismo social é a pauta central. Mas Pedro Antonio, que havia lidado com essa questão em “Tô Ryca!” no ano passado, quer tratar disso outra vez abandonando o tom fantasioso para seguir as tradições do family film, conforme contou nesta entrevista para o Cine Resenhas.

Acima de tudo, “Um Tio Quase Perfeito” é um veículo para testar o talento de Marcus Majella, que aos 38 anos recebe a sua primeira chance como protagonista em um longa-metragem. Como o Tio Tony, o comediante assume a responsabilidade livre dos cacoetes de seu impagável Ferdinando, personagem de “Vai que Cola”, dando forma a um perfil caro para o gênero: o do anônimo que precisa ralar para sobreviver ao fim do dia, mesmo que para isso recorra a trambiques.

Trata-se de um sujeito nos seus 30 e poucos anos sem renda fixa e casa própria e que ainda vive com a mãe (a fofa Ana Lúcia Torre), um reflexo de boa parte dos cidadãos de um país que a cada geração atrasa a conquista da independência e estabilidade. Sem sucesso para exercer a vocação de ator, Tony se apropria de suas habilidades na rua, seja se imobilizando para angariar algumas moedas como estátua viva, seja se passando por pastor para vender água milagrosa.

É o extremo oposto de sua irmã Angela (Letícia Isnard), estando em uma situação economicamente tranquila com os seus três filhos (interpretados por Jullia Svacinna, João Barreto e Sofia Barros) e um marido, Gustavo (Eduardo Galvão), que compensa a ausência com o bem-estar proporcionado com os rendimentos como político. Pois são desses rebentos que o Tio Tony vai cuidar por 15 dias, mais como uma estratégia para driblar o fato de ter sido despejado de seu apartamento e menos por se importar com eles.

Companheira de Sergio Rezende tanto no cinema quanto na vida privada, Mariza Leão deixa claro a sua influência como produtora na polidez do roteiro. É como se tudo o que de ruim que se espera de um filme família (as velhas rixas entre crianças e adultos, as prendas, as escatologias) desse lugar a algo muito mais afetuoso e possível para o contexto.

Extremamente positivo, por exemplo, como os pequenos são bem perspicazes ao notarem que há algo de desequilibrado com os seus responsáveis, como demonstra Patricia, a irmã mais velha vivida por Svacinna, ao oferecer o que poupou de mesada para o seu tio resolver um impasse com cobradores perigosos. Claro que há outros instantes que flertam com o pieguismo, mas nada que comprometa a diversão em família e (surpresa) um sabor de quero mais.

Data:
Filme:
Um Tio Quase Perfeito
Avaliação:
3
Sobre Alex Gonçalves
Editor do Cine Resenhas desde 2007, Alex Gonçalves é estudante de Jornalismo e viciado em música, fotografia, leitura e escrita. Mais informações na página "Sobre".

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