Resenha Crítica | Animal Político (2016)

Animal Político, de Tião

O que impede um progresso mais imediato da cinematografia brasileira é um desequilíbrio de intenções. Enquanto o cinema dito mais popular parece preocupado em apenas reprisar fórmulas testadas e aprovadas incansavelmente, a produção alternativa é pouco vista pelo egocentrismo de suas propostas e o descaso ao endereçar temas que encontrem no público algum respaldo.

Melhor filme apresentado na primeira leva da Sessão Vitrine Petrobrás, “Animal Político” é um modelo do que deveria ambicionar qualquer produção experimental do país. A estranheza é o primeiro sentimento que contagia uma sessão de “Animal Político”, mas ela nos atrai ao invés de repelir. O humor também faz parte da fórmula, bem como um tom filosófico tão importante para narrativas existenciais.

Aqui, uma vaca com a voz de Rodrigo Bolzan é vista em diversos contextos do cotidiano, como no almoço em um restaurante, em compras em um shopping e na companhia de amigos em um churrasco ou na balada. Mas é um animal reconhecido como um componente humano, pertencendo a uma família com pais e uma irmã e marcando uma presença nas cenas sem qualquer deslocamento.

Tião, uma assinatura ostentada como diretor e roteirista por si só incomum, sabe como causar um efeito desnorteador, sendo astuto o suficiente para refletir sobre a banalidade de nossa existência impondo uma figura que embaralha as nossas certezas. A essa escolha, vem uma estrutura que quebra a linearidade do primeiro ato com uma nova história aparentemente individual, “A Pequena Caucasiana”, em que a ruiva Elisa Heidrich caminha totalmente nua aguardando desde a infância que alguém a resgate em uma ilha deserta.

Há outras ideias geniais no curso de “Animal Político”, como associar um livro da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) como uma espécie de bíblia ou monumento para atingir a sabedoria suprema sobre o sentido da vida. Há também uma reencenação de “2001: Uma Odisseia no Espaço”, dando ênfase ao nosso processo evolutivo. Muito mais que cômicas, tais estranhezas agregam muito peso para devaneios essencialmente mundanos, todos a serviço de uma realização que compreende que o experimentalismo vem mais de uma retirada temporária da zona de conforto e menos de uma agressão aos sentidos e intelectualidade. Desde já, um dos melhores filmes nacionais do ano.

Data:
Filme:
Animal Político
Avaliação:
4
Sobre Alex Gonçalves
Editor do Cine Resenhas desde 2007, Alex Gonçalves é estudante de Jornalismo e viciado em música, fotografia, leitura e escrita. Mais informações na página "Sobre".

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