Resenha Crítica | Frantz (2016)

Frantz, de François Ozon

Enaltecer o diretor e roteirista François Ozon é um processo inevitável na avaliação de cada novo filme com a sua assinatura, mesmo aqueles que obtêm um resultado mediano. Prestes a completar 50 anos (em 15 novembro) e com uma carreira iniciada aos 21, o francês vem desde “Olhando Para o Mar” (1997) fazendo uma média de um longa por ano, sempre flertando com gêneros e temáticas.

Prova de sua versatilidade é “Frantz”, um drama que diagnostica os efeitos da Primeira Guerra Mundial vindo logo após “Uma Nova Amiga”, este sobre um homem maduro e viúvo revelando paulatinamente o pertencimento ao gênero feminino. E o melhor: o passeio por narrativas tão distintas em nenhum momento o faz abdicar de sua autoria, notória pela exploração da intimidade de personagens e a busca por uma estética extremamente particular.

Aqui, a alemã Anna (a extraordinária Paula Beer, revelada em “O Vale Sombrio“) é capturada em um momento de luto, pois ainda não superou a perda de Frantz (Anton von Lucke), morto em combate na França e com quem se casaria. Os pais de seu amado, Madga (Marie Gruber) e Hans (Ernst Stötzner), vivem com ela e até encaram com naturalidade a inevitabilidade de um novo pretendente, mas a extraordinária fotografia de Pascal Marti aponta que em sua existência não há mais cores.

O preto e branco só cede com a vinda não anunciada de Adrien Rivoire (Pierre Niney), que se apresenta como um grande amigo francês de Frantz a fim de prestar pessoalmente condolências à família. A cordialidade e fragilidade de Adrien atraem Anna, por quem está disposta a anunciar a sua paixão até o instante em que a verdadeira motivação de sua breve passagem pela Alemanha é compartilhada.

A princípio, o texto sensível, que deve as suas origens ao espetáculo de Maurice Rostand (já levada aos cinemas em 1932 pelas mãos de Ernst Lubitsch com “Não Matarás”), concentra as suas atenções nos efeitos devastadores em gerações maduras com o fim de suas jovens continuidades, bem como nas mulheres inconsoláveis com a morte daqueles com quem constituíram uma família. No entanto, “Frantz” é, acima de tudo, um filme sobre Anna.

De certo modo, não há como não aproximar Anna com a Angel Deverell de “Angel”. Assim como a personagem encarnada pela inglesa Romola Garai na obra mais subestimada de Ozon, Anna é uma protagonista capaz de forjar uma nova realidade, uma consequência de alguém em busca de um sentido para a sua vida. Sentido que acena para ela pelos caminhos mais dolorosos, como a impressão de perder um amor pela segunda vez e o flerte com a morte, esta tornando ainda mais emblemática o suicídio pintado por Manet em 1887. É pela tragédia que se revigora o desejo de viver, concluirá Anna.

Data:
Filme:
Frantz
Avaliação:
51star1star1star1star1star
Sobre Alex Gonçalves
Editor do Cine Resenhas desde 2007, Alex Gonçalves é estudante de Jornalismo e viciado em música, fotografia, leitura e escrita. Mais informações na página "Sobre".

2 Comentários em Resenha Crítica | Frantz (2016)

  1. Excelente o filme e seus comentários. Só não concordo um pouco com a afirmativa que o aparecimento da cor se dá com a chegada de Adrien. Na verdade, entendo que a cor vem do olhar de Anna sobre o amor, que é reanimado com as lembranças de Frantz narradas por Adrien. Os momentos vividos com Adrien não têm cor, nem msm o beijo. Porém, ao dizer que o quadro a faz pensar na vida, a cor volta. O amor dela pela vida.

    • Olá, Paula. Muito obrigado pela visita e comentário. Na verdade, só apontei que essas cores tingem a tela a partir da chegada do Adrien, não que elas sejam necessariamente justificadas apenas por sua presença. Na realidade, estou de pleno acordo quando a sua percepção sobre a relação da Anna com o amor em suas mais diversas extensões. Um beijo.

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