Resenha Crítica | Mar Inquieto (2016)

Mar Inquieto, de Fernando Mantelli

No prólogo de “Mar Inquieto”, uma garota no corredor de espera de um necrotério é informada por um sujeito qualquer sobre a existência de um mar em um local específico que se comunica com as pessoas. Tal momento vai corresponder não somente ao que enfrentará essa menina quando bem mais velha, Anita (Rita Guedes), mas também a um tom de terror buscado pelo diretor e roteirista Fernando Mantelli em vários momentos de “Mar Inquieto”.

No entanto, o medo propriamente dito é emanado mais por consequências do cotidiano do que por forças sobrenaturais ou de outro mundo que são citadas por membros de uma cidadezinha supersticiosa. No caso de Anita, ela superou a dependência química, mas tem outro contratempo a driblar, sendo o relacionamento abusivo com Vitorino (Daniel Bastreghi).

Além das agressões verbais e físicas, Anita ainda tolera os riscos de se envolver com um homem metido até o pescoço em negócios escusos, com gente perigosa batendo à sua porta. Sem ofício pela dedicação exclusiva à casa na praia que vive com Vitorino ou família, Anita fica assim na velha situação em que precisa cancelar os planos de fuga. Bom, isso até acontecer algo gravíssimo.

Responsável por um dos segmentos de “13 Histórias Estranhas” e autor dos livros “Feliz Fim do Mundo” e “Raiva nos Raios de Sol”, Fernando Mantelli estreia na direção de um longa de ficção bem produzido em alguns aspectos, como na fotografia de Juliano Lopes (“Ainda Orangotangos”), cuidadosa na captação tanto das paisagens de um lugar que parece existir permanentemente sob um clima nublado quanto nos planos-detalhe esporádicos. Por outro lado, é clara a falta de novos tratamentos ao texto, bem como um planejamento de como organizar “Mar Inquieto” durante o seu processo de montagem.

Como dito, é comum a escolha de confrontar perigos reais com outros em que não podemos comprovar a sua existência com racionalidade. Entretanto, é difícil levar a sério uma narrativa que a princípio reforça elementos satânicos e até mesmo alienígenas para a seguir não saber o que fazer com eles a não ser ignorá-los ou resolvê-los com consequência de alguma perturbação psicológica nem um pouco crível.

Também é muito confusa a estratégia de quebrar a linearidade da história com o uso de flashbacks redundantes, tratando sobre eventos passados de Anita extremamente óbvios, como a vida que levava antes de se reabilitar ou a consequência de um embate com Vitorino. A única coisa que talvez funcione de fato é a intervenção de Paula. Interpretada pela boa Áurea Baptista (também em cartaz com “Mulher do Pai”), a sua personagem, que é a melhor amiga de Anita e que está em um casamento claramente tedioso, dá a “Mar Inquieto” alguns toques cômicos eficazes. Talvez um toque de humor negro fosse muito mais adequado do que toda a falácia folclórica incongruente.

Data:
Filme:
Mar Inquieto
Avaliação:
1
Sobre Alex Gonçalves
Editor do Cine Resenhas desde 2007, Alex Gonçalves é estudante de Jornalismo e viciado em música, fotografia, leitura e escrita. Mais informações na página "Sobre".

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