Resenha Crítica | Armas na Mesa (2016)

Miss Sloane, de John Madden

Se há controvérsia quanto a ausência de bons papéis femininos em Hollywood, Jessica Chastain ao menos tem sido uma das atrizes a saber driblar tal escassez. Criando uma tradição em incorporar mulheres com temperamentos fortes, Chastain é presenteada em “Armas na Mesa” com uma oportunidade de rever atributos de sua Maya de “A Hora Mais Escura”, longa em que entregou a melhor interpretação de sua carreira. Já como Elizabeth Sloane, ela dá formas para aquela que é a personagem mais fascinante do ano.

O britânico John Madden (“Shakespeare Apaixonado”) já havia dado pra Chastain uma das primeiras chances de ouro para se transformar em uma atriz de primeiro time com “A Grande Mentira”, ótimo drama de espionagem produzido em 2010 em que a ruiva fazia a versão mais jovem de Helen Mirren. Neste reencontro, a potência é multiplicada com a apresentação de uma personagem central ardilosa, astuta e com intenções questionáveis que só contribuem para a sua tridimensionalidade.

De tão hipnotizante, Elizabeth Sloane/Jessica Chastain vai fazer até o mais ignorante quanto ao burocrático universo dos lobistas embarcar nele em um piscar de olhos. No entanto, Sloane não é uma profissional qualquer, agindo sem qualquer escrúpulo se a missão é movimentar peças de um tabuleiro para determinar os rumos que querem traçar algumas autoridades e políticos.

O próximo cliente da firma para a qual trabalha, George Dupont (Sam Waterson), quer contar com ela para convencer a maioria do eleitorado a votar a favor de uma lei que restrinja o acesso à armas de fogo. Sloane não despreza somente a proposta, como decide mover parte de sua equipe para a firma rival comandada por Rodolfo Schmidt (Mark Strong), estabelecendo uma batalha que parece reviver o velho embate entre Davi e Golias, com ela usando toda a sua artilharia para atingir os seus propósitos.

Como bem ilustrado em flashforwards que tomam o curso dessa narrativa, há coisas que pela primeira vez não resultaram como o programado por Sloane, tendo assim de prestar contas em sessões de tribunais para um juiz (John Lithgow) claramente empenhado em desmoralizá-la ao extrair dela detalhes pouco lisonjeiros de sua intimidade e método de trabalho. Ainda assim, a sensação é a de que Sloane está sempre a um passo a frente daqueles que a rodeiam e, consequentemente, do público.

Antes um advogado, Jonathan Perera estreia como roteirista a partir de um texto engenhoso em todas as suas extensões, seja na fluência com a qual bola diálogos e interações de um cenário do qual pouca familiaridade temos, seja no encontro da humanidade de uma série de personagens aparentemente frios por dedicarem cada segundo em que estão acordados ao trabalho que exercem. Nem dois lances previsíveis envolvendo a novata Esme Manucharian (Gugu Mbatha-Raw) e a ambiciosa Jane Molloy (Alison Pill), respectivamente a nova e a antiga braço direito de Sloane, abalam o pavio de uma bomba sempre prestes a explodir.

Se não bastasse, “Armas na Mesa” ainda nos deixa em estado de inquietação pela escolha de uma conclusão que só embaraça as nossas certezas sobre a verdadeira natureza de Sloane, obra de uma ficção que deixa como rastro uma série de cutucadas sobre uma nação tão obsessiva com a “segurança” de deitar a cabeça em um travesseiro com a ciência que por baixo dele há uma arma carregada para disparar contra qualquer ameaça. Uma constatação em forma de tapa na cara que talvez seja a única justificativa para um filme tão bom ter amargado um fracasso comercial tão incompreensível nos cinemas americanos.

Data:
Filme:
Armas na Mesa
Avaliação:
4
Sobre Alex Gonçalves
Editor do Cine Resenhas desde 2007, Alex Gonçalves é estudante de Jornalismo e viciado em música, fotografia, leitura e escrita. Mais informações na página "Sobre".

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