Resenha Crítica | Soundtrack (2017)

Soundtrack, de 300ml

Há coisas incomuns rodeando o drama “Soundtrack”. Interpretado por Selton Mello, Cris desembarca em uma estação internacional de pesquisa no Ártico com o propósito de fazer um experimento fotográfico composto de selfies em paisagens gélidas. Já a princípio, notamos alguns indícios de instabilidade desse protagonista, que sente o ambiente que está habitando como se fosse um cego.

A verdade é que o sentimento de estranhamento é uma consequência da própria natureza da produção, sendo ela brasileira com características estrangeiras. Dirigido pela dupla 300ml (como preferem ser apresentados os publicitários Bernardo Dutra e Manitou Felipe, os mesmos do curta “O Código Tarantino”), “Soundtrack” é inteiramente falado em inglês, tem três intérpretes estrangeiros dos cinco que compõem o elenco e oferece uma premissa intimista que em nada reflete as pautas que movem a cinematografia nacional.

De algum modo, são escolhas que nebulam as verdadeiras motivações de um artista em terra estranha, com dois detalhes de sua vida que abrem um leque de possibilidades sobre o que se passa em seu interior. O primeiro vem a ser o fato da perda de uma mãe sem visão. Já o segundo, ilustrado por um flashback que dura segundos, há o contato com um homem em seu apartamento cuja identidade nunca é elucidada.

A princípio contrariado com a presença de Cris, Mark (o excelente Ralph Ineson, de “A Bruxa”) acaba tendo um fascínio por sua figura, exercendo uma função fraternal para um sujeito que desconhece o solo congelado que está pisando. Estabelece-se assim uma troca de experiências, com um compreendendo a função do outro mesmo tendo perfis por vezes antagônicos.

Há inconsistências em “Soundtrack”. Tecnicamente bem acabada, a produção é centrada em um estúdio que reproduz perfeitamente o cenário inspirado em locações na Islândia com toneladas de neve e computação gráfica, mas comete o erro primário de jamais colocar os intérpretes em uma temperatura de fato baixa para que possam soltar vapor condensado enquanto falam, condenando a ilusão sobre o lugar em que dizem estar. Também incomoda quando a música não é usada de modo homogêneo, com as suas inúmeras interrupções abruptas.

De qualquer modo, o interesse não se dissipa diante desses e outros pormenores, especialmente pelo interesse crescente que desenvolvemos diante dos protagonistas e a sensação que vivenciam de enclausuramento. Há também uma conclusão que engrandece a história, dando uma resolução extrema de um ofício que nem sempre preserva aquele que a executa intimamente.

Data:
Filme:
Soundtrack
Avaliação:
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Sobre Alex Gonçalves
Editor do Cine Resenhas desde 2007, Alex Gonçalves é estudante de Jornalismo e viciado em música, fotografia, leitura e escrita. Mais informações na página "Sobre".

2 Comentários em Resenha Crítica | Soundtrack (2017)

  1. Fiquei mt curioso em relação a esse filme e gosto do curta “Tarantino Mind´s”.Segundo o Selton mello essa dupla tem um estilo Spike Jonze.Quando conferir “Soundtrack” volto aqui.

    • Paulo, adoro “O Código Tarantino”. e estava com expectativas de ver uma estreia dos diretores no cinema. Eles atuavam como publicitários e gostam de ficar um pouco atrás das cortinas. Queria ter tido a chance de entrevistá-los. É um bom filme, volte aqui depois pra dizer se gostou.

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