Resenha Crítica | Deserto (2017)

Deserto, de Guilherme Weber

Há pouco tempo, Rosemberg Cariry finalmente lançou comercialmente “Os Pobres Diabos”, no qual evidenciou a arte circense pelo sertão em um momento de crise compatível com o qual vivemos de algum modo atualmente, muito pelo descrédito do público por uma classe em impasse com toda a polarização política que toma o nosso país. É parecido o primeiro ato dessa comédia com a estreia de Guilherme Weber na direção com “Deserto”. Depois dele, muda-se tudo, inclusive o tom, agora um tanto desesperançoso.

Inspirado no romance “Santa Maria do Circo”, do mexicano David Toscana, “Deserto” acompanha um pequeno coletivo de artistas liderado por Dom Aleixo (Lima Duarte) em itinerância. Sem mais energias, chega a uma vila desabitada, com somente uma plantação com alguns vegetais, um porco magro, uma fonte de água e muitos urubus.

Dom Aleixo não resiste e para os demais resta se reinventarem em papéis selecionados na sorte. Portanto, Alma (Magali Biff, em desempenho fascinante) se transforma em Doutura, Valquíria (Cida Moreira) na Cozinheira, Narcisa (Pietra Pan) na Caçadora, Anão (Claudinho Castro) no Padre, Draco (Everaldo Pontes) no Militar, Domênico (Fernando Teixeira) no Negro e Hercules (Marcio Rosario), na Puta.

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Em seus melhores momentos, “Deserto” apresenta um caráter bem provocativo na reorganização do seu microcosmo, por vezes evocando inclusive “Manderlay”, de Lars von Trier. Cedo ou tarde, todos esses artistas vão protagonizar ações movidos pela cobiça ou necessidade, revelando não somente o instinto primitivo característico de nossa natureza, mas também a consequência de se aprisionar em modelos pré-estabelecidos.

A esse contexto, encenado em um cenário com traços pós-apocalípticos, vem a esplendorosa fotografia do português Rui Poças, parceiro constante de João Pedro Rodrigues (“O Ornitólogo”) e Miguel Gomes (“Tabu”) em sua primeira contribuição na cinematografia brasileira, transformando cada plano em uma verdadeira pintura. Como elemento anacrônico, vem a música da banda “Beijo AA Força”, “A Partida”, estabelecendo laços desconfortáveis com nossa contemporaneidade.

Data:
Filme:
Deserto
Avaliação:
41star1star1star1stargray
Sobre Alex Gonçalves
Editor do Cine Resenhas desde 2007, Alex Gonçalves é estudante de Jornalismo e viciado em música, fotografia, leitura e escrita. Mais informações na página "Sobre".

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