Os 10 Melhores Filmes Brasileiros de 2017

O Cine Resenhas nunca teve uma oportunidade tão grande quanto em 2017 para prestigiar o cinema nacional. Graças ao acesso proporcionado para fazer entrevistas com diretores e intérpretes, dando novo fôlego a um trabalho de cobertura que logo completará 11 anos. Portanto, nada melhor do que celebrar esse passo tão importante para o nosso histórico preparando pela primeira vez no espaço um top 10 com as melhores produções brasileiras lançadas no último ano, seguida de comentários e links complementares para análises na íntegra e entrevistas cedidas.

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#10. Beduíno, de Júlio Bressane

Bressane pode continuar a defesa de que “Beduino”, assim como qualquer outro filme com a sua assinatura, sobre nada se trata. Mas o que não falta aqui é substância nos atritos que pautam as inúmeras personificações de Alessandra Negrini e Fernando Eiras. Em comum, as identidades femininas partilham o tom de malícia dos diálogos de natureza literária de Negrini, enquanto as masculinas sinalizam uma inquietação não verbalizada por Eiras.

Outra vez, o velho e o novo confluem. Ele gosta de coisas antigas. Ela é moderna. O corpo de Negrini é matéria para tomadas exuberantes, possíveis pela flexibilidade de um novo suporte – como também o é para ressuscitar “Memórias de um Estrangulador de Loiras”, filme maldito produzido pelo cineasta em exílio em 1971. Um artista plenamente consciente de sua bagagem, encontrando no hoje um meio de prosseguir eloquente e renovado.

+ Análise na íntegra
+ Os 10 Melhores Filmes da 40ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.

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#9. Bingo: O Rei das Manhãs, de Daniel Rezende

Selecionado para concorrer ao Oscar 2018 de Melhor Filme Estrangeiro, o filme de Daniel Rezende ficou de fora da lista de semifinalistas divulgada em dezembro. Isso não significa que o Brasil não tenha acertado em sua escolha de representante. Indicado ao Oscar pela montagem de “Cidade de Deus”, Daniel Rezende faz uma estreia segura na direção de longa-metragem, ainda que tenha que prestar contas ao roteiro de Luiz Bolognesi que por vezes enaltece demais a figura real de Arlindo Barreto, responsável por vestir o figurino do palhaço Bozo enquanto afundava em sua vida privada. Vibrante na maior parte do tempo não somente por sua impecável reconstituição de época, como também no modo como acompanha o ápice e queda de um homem em luta para assumir o protagonismo com o seu talento, aqui interpretado por Vladimir Brichta em seu melhor momento.

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#8. Vermelho Russo, de Charly Braun

O diretor Charly Braun já havia com “Além da Estrada”, o seu primeiro longa de ficção, explorado a posição de quem está em uma “terra estranha”. Aqui, ele embaralha ainda mais o estranhamento que isso provoca propondo um experimento em que a linha que separa o verídico da ficção é borrada. Como se percebe, Martha Nowill (que inclusive teve o seu diário de viagem para a Rússia em tempos distintos como base para a elaboração do roteiro) e Maria Manoella emprestam versões de si mesmas e a dúvida sobre o núcleo coadjuvante ter se submetido a esse jogo permanecerá após o rolar dos créditos finais.

Porém, a principal virtude de “Vermelho Russo” é encontrar um ápice em que o espectador seja capaz de se conectar com a história narrada sem necessariamente pertencer ao nicho das artes que se encena. A proposta não é nem um pouco pretensiosa e o seu registro, por vezes documental, encontra a beleza sem necessariamente se prender a cartões-postais. No fim das contas, assim como Martha e Maria, estamos todos inseridos em um tablado em busca de algum equilíbrio.

+ Análise na íntegra
+ Entrevista com as atrizes Martha Nowill e Maria Manoella
+ Entrevista com o diretor Charly Braun

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#7. Martírio, de Vincent Carelli

É de se exaltar que a questão indígena esteja em pauta em nossa cinematografia. Na ficção, ela foi trabalhada de forma central em “Antes o Tempo Não Acabava” e “Não Devore Meu Coração!”. No documentário, tivemos “Taego Ãwa” e “Martírio”, este sendo o melhor desse recorte específico. Nascido na França, Vincent Carelli transforma anos de pesquisa antropológica em um atestado sobre a comunidade Guarani Kaiowá, em processo de extinção devido aos interesses territoriais do agronegócio. A longa duração do registro não apenas faz uma cobertura completa de um extermínio sustentado e ignorado por anos, como reflete a longa caminhada por um desejo de justiça que parece que jamais se concretizará.

+ Os 10 Melhores Filmes da 40ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo

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#6. Axé: Canto Do Povo De Um Lugar, de Chico Kertész

Não se testemunhou sessão de cinema mais vibrante do que a da première de “Axé: Canto Do Povo De Um Lugar” na Mostra Internacional de Cinema em São Paulo de 2016. Com a presença de Daniela Mercury na plateia, a sensação era a de estar diante do show que a própria cantora fez nos anos 1990 no Vão Livre do MASP, evento que parou toda a Avenida Paulista. Não foi à toa. O registro documental de Chico Kertész reacende o interesse pelo gênero musical baiano com um forte sentimento de nostalgia, do seu nascimento até as vozes que ainda o sustenta de forma remodelada. Até os mais avessos ao axé se verão cantarolando e com vontade de dançar com as músicas de Luiz Caldas, Olodum, Araketu, Ivete Sangalo, É o Tchan!, Netinho e tantos outros.

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#5. Waiting For B., de Abigail Spindel e Paulo Cesar Toledo

Exibido no último Festival MixBrasil de Cultura da Diversidade, este documentário acerca dos fãs que acamparam durante dois meses para assistir ao show da Beyoncé em 2013 no Estádio do Morumbi é daqueles que desfazem qualquer preconceito com jovens com uma devoção extrema por uma artista. Isso acontece porque os codiretores Abigail Spindel e Paulo Cesar Toledo fazem um mapeamento perspicaz da vida privada de cada um deles, inseridos em cenários que nem sempre autorizam que externem quem verdadeiramente são, encontrando em um talento da música uma opção de fuga da realidade. Muito além disso, “Waiting for B.” é extremamente divertido ao acompanhar uma pequena comunidade se formando dentro de uma cabana em que confidências, piadas e demonstrações de amizade são trocadas sem reservas.

+ Análise na íntegra
+ Entrevista com a codiretora Abigail Spindel

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#4. Deserto, de Guilherme Weber

Em seus melhores momentos, “Deserto” apresenta um caráter bem provocativo na reorganização do seu microcosmo, por vezes evocando inclusive “Manderlay”, de Lars von Trier. Cedo ou tarde, todos esses artistas vão protagonizar ações movidos pela cobiça ou necessidade, revelando não somente o instinto primitivo característico de nossa natureza, mas também a consequência de se aprisionar em modelos pré-estabelecidos.

A esse contexto, encenado em um cenário com traços pós-apocalípticos, vem a esplendorosa fotografia do português Rui Poças, parceiro constante de João Pedro Rodrigues (“O Ornitólogo”) e Miguel Gomes (“Tabu”) em sua primeira contribuição na cinematografia brasileira, transformando cada plano em uma verdadeira pintura. Como elemento anacrônico, vem a música da banda “Beijo AA Força”, “A Partida”, estabelecendo laços desconfortáveis com nossa contemporaneidade.

+ Análise na íntegra
+ Entrevista com o diretor Guilherme Weber
+ Entrevista com os atores Cida Moreira e Marcio Rosario

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#3. As Duas Irenes, de Fabio Meira

A premissa de vida dupla ganha uma abordagem extremamente original pelas mãos de Fabio Meira em “As Duas Irenes”, a sua estreia como diretor de longa-metragem já carregando a distinção de ter sido exibido em uma mostra paralela do Festival de Berlim. Sem recato, registra o cotidiano das Irenes vividas por Priscila Bittencourt e Isabela Torres quando a primeira descobre ser irmã da segunda, consequência de um pai, Tonico (Marco Ricca), que mantém em segredo o fato de ser o chefe de duas famílias. A pré-adolescência é talvez o período de maiores incertezas da existência humana e Meira se apropria disso para inclusive discutir sobre identidade, aqui fragmentada pelo espaço que se ocupa e o que se deseja habitar, pelos desejos na puberdade e até por um contexto de valores que parecem perdidos no tempo. A conclusão é particularmente extraordinária.

+ 9 Perguntas Secretas com Priscila Bittencourt e Isabela Torres
+ Entrevista com as atrizes Priscila Bittencourt e Isabela Torres
+ Entrevista com a atriz Inês Peixoto

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#2. Como Nossos Pais, de Laís Bodanzky

Laís Bodanzky promoveu “Como Nossos Pais” sob a tese de que o seu filme defenderia um novo modelo de mulher que se reconfigura em nossa contemporaneidade, não mais conformada com as convenções de esposa, mãe e dona do lar. Rosa (Maria Ribeiro) se vê mesmo nessa situação. De tão insatisfeita, não há uma cena em que não a flagramos à beira de um ataque de nervos. Mas “Como Nossos Pais” é tão mais que isso. Trata também, evidentemente, sobre a influência que a nossa geração passada exerce sobre nós e, principalmente, sobre a necessidade de se permitir a uma liberdade nem sempre possível com as responsabilidades assumidas para toda a vida e compreendida quando de fato batemos de cara com a sua finitude, aqui na forma implacável da mãe de Rosa interpretada pela grande Clarisse Abujamra.

+ Entrevista com a diretora Laís Bodanzky e a atriz Maria Ribeiro

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#1. Animal Político, de Tião

Tião, uma assinatura ostentada como diretor e roteirista por si só incomum, sabe como causar um efeito desnorteador, sendo astuto o suficiente para refletir sobre a banalidade de nossa existência impondo uma figura que embaralha as nossas certezas. A essa escolha, vem uma estrutura que quebra a linearidade do primeiro ato com uma nova história aparentemente individual, “A Pequena Caucasiana”, em que a ruiva Elisa Heidrich caminha totalmente nua aguardando desde a infância que alguém a resgate em uma ilha deserta.

Há outras ideias geniais no curso de “Animal Político”, como associar um livro da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) como uma espécie de bíblia ou monumento para atingir a sabedoria suprema sobre o sentido da vida. Há também uma reencenação de “2001: Uma Odisseia no Espaço”, dando ênfase ao nosso processo evolutivo. Muito mais que cômicas, tais estranhezas agregam muito peso para devaneios essencialmente mundanos, todos a serviço de uma realização que compreende que o experimentalismo vem mais de uma retirada temporária da zona de conforto e menos de uma agressão aos sentidos e intelectualidade. Desde já, um dos melhores filmes nacionais do ano.

+ Análise na íntegra

Sobre Alex Gonçalves
Editor do Cine Resenhas desde 2007, Alex Gonçalves é estudante de Jornalismo e viciado em música, fotografia, leitura e escrita. Mais informações na página "Sobre".

1 Comentário em Os 10 Melhores Filmes Brasileiros de 2017

  1. Bela lista e destaco “Bingo:O Rei das Manhãs”(meu nacional favorito) e “Como Nossos Pais”.Não sou fã de “Animal Politico”,mas admiro a tentativa de apresentar algo original de Tião.Enfim…2017 foi um grande ano para o cinema nacional.

    Feliz Ano Novo Alex,acompanho sempre suas críticas e desejo um Feliz Ano Novo para vc e sua familia.

    Que 2018 nos traga grandes filmes,

    Abraço!

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