Os Cinco Filmes Prediletos de Yuri Deliberalli

Yuri foi mais um cinéfilo que conheci por intermédio da saudosa Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos, ainda que ele também more em São Paulo. E desde o primeiro encontro matinal entre os membros em uma edição da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, temos nos esbarrado com alguma frequência em sessões de outros festivais, como o INDIE ou aqueles promovidos pelo CineSesc de cineastas e vanguardas.

Entre os intervalos, sempre discutimos não somente sobre os filmes que acabamos de assistir, como todos os demais que compõem ou não as nossas bagagens. A dificuldade é entrarmos em um acordo. Aí está uma singularidade em nossas interações, pois as divergências sempre se dão com respeito, por vezes em tom de brincadeira mesmo.

Parte disso está em pontos de vista bem fundamentados, também expressos em sua escrita, que pode ser prestigiada no Discurso Cinematográfico, o seu blog pessoal de cinema. Como redator, Yuri também atua no projeto coletivo Multiplot! e deve ser acompanhado no Letterboxd.

A seguir, Yuri contou para o Cine Resenhas quais são os seus cinco filmes prediletos hoje.

 

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O Portal do Paraíso, de Michael Cimino (Heaven’s Gate, 1980)

Talvez o filme mais representativo da verdadeira natureza do sonho americano. Desolação e melancolia impregnam cada um dos frames e tornam a experiência cinematográfica profundamente brutal sobre o espírito de prosperidade, liberdade e esperança que o filme tanto nega ao espectador. É um filme todo elaborado em ciclos, desde a ingenuidade da dança de formatura até a violência da dança da cavalaria durante o massacre final, num sentido de que o rumo da história (e do país que a modulou) pode girar, mas sempre voltará ao mesmo lugar. Vi na tela do Cinesesc numa retrospectiva do Cimino há uns anos e não há como ficar ileso.

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Um Dia Quente de Verão, de Edward Yang (Gu ling jie shao nian sha ren shi jian, 1991)

Uma paixão que veio em uma dessas sessões icônicas que a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo proporciona de tempos em tempos. Um restauro primoroso de um filme sobre a selvageria de um contexto e seu impacto violento sobre a formação do indivíduo. A invasão ocidental sobre a cultura oriental e a consequente deturpação de costumes e tradições ao ponto em que a violência – esse ato mais instintivo – torna-se a única via possível. São quatro horas de cuidado e maturidade narrativa.

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A Palavra, de Carl Theodor Dreyer (Ordet, 1955)

O Alex tem influência direta neste aqui, uma vez que decorreu de uma lista jamais publicada na finada Sociedade dos Blogueiros Cinéfilos sobre os vencedores de Veneza. Foi meu primeiro Dreyer e causou espanto pelo quão cirúrgica ou mesmo matemática é sua maneira de filmar, em que cada movimento de câmera, posicionamento de atores e cada corte parecem milimetricamente calculados, mas sem que isso reduza o filme a uma excessiva formalidade. E isso casa muito bem com essa perspectiva da fé como um evento inumano e psicológico; de pura crença em um poder reconciliador que é sobrenatural e se manifesta pelas mãos humanas.

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O Leopardo, de Luchino Visconti (Il gattopardo, 1963)

Visconti é meu favorito e não poderia deixar de mencionar um filme dele por aqui. A incompreensão do Príncipe Salinas com as mudanças sociais ao seu redor jamais se torna um elemento de exposição textual, mas sim um fator de estruturação cênica. São as paredes, os lustres pomposos e os móveis intactos que denunciam a decadência e o fim das tradições seculares de uma sociedade que não vê mais espaço para algo tão obsoleto quanto a aristocracia. E sendo Visconti, a elegância jamais é um véu protocolar.

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Suspiria, de Dario Argento (idem, 1977)

Adição mais recente aos meus favoritos. Lembro de não ter achado grande coisa na primeira vez, mas a revisão no IMS recentemente alavancou a experiência e demonstrou o quão problemático é o início de cinefilia. Acima de tudo, cores como personagens onipresentes e como um elemento intensificador do horror que se esconde por trás da porta. Em um filme sobre aparências, a busca incessante pela compreensão do que acontece ao redor torna a realidade um sonho e o sonho em uma experiência demoníaca.

Sobre Alex Gonçalves
Editor do Cine Resenhas desde 2007, Alex Gonçalves é estudante de Jornalismo e viciado em música, fotografia, leitura e escrita. Mais informações na página "Sobre".

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