Resenha Crítica | A Repartição do Tempo (2016)

A Repartição do Tempo, de Santiago Dellape

.:: 40ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

A fórmula que vem assegurando o sucesso da comédia brasileira nos últimos anos é a exploração das crises financeiras, profissionais e matrimoniais da classe média brasileira, justamente o público que mais vai ao cinema para os males espantar dando risada daquilo com o que se identifica. Primeiro longa-metragem de Santiago Dellape, “A Repartição do Tempo” será lançado no circuito comercial como se fosse um exemplar alternativo do nosso cinema, mas merecia centenas de cópias não somente pelo seu apelo, como também pelo seu humor incisivo.

É, portanto, superior a tudo o que Roberto Santucci já fez. Não apenas se comunica com o espectador, mas é realmente muito bom. Guardadas às devidas proporções, lembra muito o que Alexandre Machado e Fernanda Young fizeram com acidez nos sete episódios de “Os Aspones” nos idos 2004, com uma dose extra de imaginação ao inserir a história no campo do fantástico.

Protagonista da história, Jonas (Edu Moraes) se vê inserido em uma rotina de desencantos com outros colegas de trabalho em uma repartição pública em Brasília identificada como REPI: Registro de Patentes e Invenções. É para ela que vai o protótipo de uma máquina do tempo do Dr. Brasil (Tonico Pereira) para registro, usado às escondidas pelo chefe do local, Lisboa (Eucir de Souza), com a intenção de fazer com o que os resultados de produtividade subam.

A partir dessa premissa, Dellape se deixa nortear por obras oitentistas que certamente são essenciais para a formação de qualquer cineasta que ambiciona por uma carreira na comédia, de “Os Trapalhões” a “De Volta Para o Futuro”. Com as inspirações, visualiza rumos inusitados para o progresso da narrativa, fazendo Lisboa duplicar os seus subordinados com a máquina do tempo para que as cópias usurpem os seus lugares enquanto confina os originais em um departamento subterrâneo para trabalharem pesado em caráter de licença-prêmio.

É também um excelente diretor de elenco, exibindo atores pouco conhecidos que funcionam perfeitamente em conjunto e cada um com grandes cenas que comprovam como são craques no humor, com destaque especial para Bidô Galvão como Betânia, veterana no REPI. Há até uma participação especial de Dedé Santana, aqui com um personagem diferente do que estamos habituados a vê-lo.

O melhor, contudo, é a perícia de um realizador que sabe muito bem o ambiente que está registrando. Também um funcionário público, Dellape encontra nos pequenos detalhes um potencial cômico enorme, da burocracia do serviço público (as ligações telefônicas prolongadas, os inúmeros procedimentos para o atendimento de uma solicitação) ao sentimento de estar preso em atribuições inúteis que sugam a vitalidade dos personagens, encontrando nas confraternizações regadas a Cereser e na fila para bater cartão um refúgio. A melhor comédia nacional em muito tempo.

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+ Entrevista com o diretor e roteirista Santiago Dellape

Data:
Filme:
A Repartição do Tempo
Avaliação:
41star1star1star1stargray
Sobre Alex Gonçalves
Editor do Cine Resenhas desde 2007, Alex Gonçalves é estudante de Jornalismo e viciado em música, fotografia, leitura e escrita. Mais informações na página "Sobre".

1 Comentário em Resenha Crítica | A Repartição do Tempo (2016)

  1. Fiquei com vontade de conferir “A Repartição do Tempo”.Como servidor do estado,eu tenho certeza que vou me identificar com várias situações rsrsrs

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