Resenha Crítica | A Forma da Água (2017)

The Shape of Water, de Guillermo del Toro

Desde os primórdios, o cinema se mostrou fascinado pelo fantástico, com as obras do ilusionista Georges Méliès sendo especialmente cativas por abandonar o registro do cotidiano para adentrar em mundos às vezes com criaturas que desconhecemos. Consequentemente, o público rapidamente aprendeu a apreciar esse cinema de fuga da realidade que jamais desapega de fatores humanos que fazem os nossos pés permanecerem no chão e, atualmente, o mexicano Guillermo del Toro é um dos maiores cineastas autorais a permitir esse tipo de experiência.

Trata-se de um artista que sempre transforma as suas perturbações internas e a rica fonte de referências integrada a elas em matéria-prima para o seu cinema. O sucesso de “A Forma da Água”, incluindo as suas 13 indicações ao Oscar 2018, no entanto, podem camuflar um desequilíbrio entre o fantasioso e a realidade evidente após o seu fabuloso “O Labirinto do Fauno”.

Dono do argumento original, del Toro ambienta a sua história nos tempos da Guerra Fria e conta com a contribuição de Vanessa Taylor para criar uma parábola sobre indivíduos que vivem deslocados em uma sociedade desrespeitosa com as suas diferenças. Como Elisa Esposito (Sally Hawkins), uma mulher muda. Ou a sua colega de trabalho Zelda Fuller (Octavia Spencer), uma negra. Ou o seu vizinho Giles (Richard Jenkins), um artista solitário e talentoso que não vingou e com uma característica importante sobre a sua sexualidade sendo sugerida ao longo da narrativa.

Por serem deixados à parte justamente por ser quem são, esses três personagens logo elevam a cumplicidade que compartilham quando descobrem a existência de um ser aquático como nunca se viu antes, sucessivamente torturado por Richard Strickland (Michael Shannon), coronel que comanda a base em que Elisa e Zelda são zeladoras com planos de dissecá-lo. É uma prova de coragem muito bela que se apresenta, mas lamentavelmente reduzida a mais improvável e inconvincente história de amor como há muito não se via na ficção.

Por mais especial que seja, Sally Hawkins não tem território para desenvolver a sua personagem, justamente o centro de interesse de “A Forma da Água”, e muito menos a atração desenvolvida por um anfíbio. Elisa é uma mulher que del Toro sempre registra incapaz de se comunicar plenamente ao seu modo, geralmente com Zelda e Giles atuando como os seus porta-vozes. Por outro lado, pouco faz em seu favor quando ela é vista com “A Forma”, em encontros imediatos que não dão qualquer estofo para equiparar a intensidade com a qual tudo se dá em uma tentativa de salvar a criatura.

Bem como “A Colina Escarlate“, “A Forma da Água” também soa em muitos instantes como uma obra de alguém em início de carreira. Esteticamente, é mesmo muito belo. Dentro da embalagem, há um material oco, com direito a um vilão caricato que sempre masca ferozmente pastilhas e a disponibilidade de informações que denota um desleixo no texto em elaborar circunstâncias mais complexas. No encantamento pela aproximação de humanos com outras formas de vida que só poderiam sair de seu imaginário, del Toro, desta vez, só fez algo deslocado mesmo.

Data:
Filme:
A Forma da Água
Avaliação:
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Sobre Alex Gonçalves
Editor do Cine Resenhas desde 2007, Alex Gonçalves é estudante de Jornalismo e viciado em música, fotografia, leitura e escrita. Mais informações na página "Sobre".

1 Comentário em Resenha Crítica | A Forma da Água (2017)

  1. Concordo com alguns pontos da sua crítica, Alex, principalmente no fato do primor técnico da obra e no caricatural do vilão interpretado por Michael Shannon. Entretanto, acho que gostei um pouco mais de “A Forma da Água”. Achei um filme encantador, mesmo que com esses contornos fantásticos.

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