Na cena inicial de “Divã”, baseado na peça de Marcelo Saback cujo roteiro é livremente inspirado no livro “Divã”, de Martha Medeiros, a personagem de Lilia Cabral, Mercedes, estabelece uma pequena pausa e reflete sobre os rumos que a sua própria vida levou. O casamento, os filhos que tem, a profissão como professora particular, as coisas que deixou para trás… Tudo a faz pensar que no fim a sua existência até então não lhe ofereceu a felicidade que ambicionava. Talvez seja por essa crise pessoal que mantém dentro de si que Mercedes procura por um psicanalista, pois talvez o desabafo a faça pensar com mais clareza sobre os seus problemas emotivos.
José Alvarenga Jr., que recentemente concluiu “Os Normais 2 – A Noite Mais Maluca de Todas”, foi sábio ao fazer com que Mercedes praticamente se comunique com a plateia sob o divã. Através dos detalhes que expõe do seu cotidiano recente, vemos que não há mais aquela forte paixão que existiu entre ela e o seu marido Gustavo (José Mayer). Desta forma, Mercedes também descreve as suas relações amorosas com Theo (Reynaldo Gianecchini), o irmão de uma de suas alunas, e Murilo (Cauã Reymond), rapaz com somente 19 anos. Há também a sua melhor amiga Mônica (Alexandra Richter, em excelente desempenho), com quem compartilha as neuras que surgem quando alguém já enfrenta os quarenta anos de idade.
Embora possa soar como uma história dramática, “Divã” trabalha com muito bom humor as dúvidas de sua personagem principal quando tenta tomar sérias decisões. Por se tratar de uma mulher às voltas com o peso que sua idade está lhe fazendo carregar, o filme fica a dever um pouco na sensação de exaustão que nem sempre é transmitido ao público nas seções de psicanálise. Salvo o recurso de ocultar o profissional como se Mercedes estivesse se dirigindo ao público, muitas vezes surge a impressão de todos os flashbacks serem montados com base em apenas uma seção. Há somente um discreto trabalho de figurinos que evidenciam que estão acontecendo consultas em tempos diferentes ao longo da metragem.
A falha, entretanto, está longe de comprometer o resultado de “Divã”. Não há como passar batido pela performance magnética de Lilia Cabral. Já o melhor momento do longa é um dos encontros de Lilia com a personagem de Alexandra Richter próximo ao final do filme, tocante e devastador. É no desfecho, por sinal, que encontramos o maior valor de “Divã”. De maneira surpreendente madura, “Divã” nos mostra usando o retrato de Mercedes que mesmo que tudo colabore para o desentusiasmo que surge através da tristeza, no fim de um relacionamento e com o desgaste que a idade nos traz, a felicidade pode existir.
Título Original: Divã
Ano de Produção: 2009
Direção: José Alvarenga Jr.
Elenco: Lília Cabral, José Mayer, Alexandra Richter, Reynaldo Gianecchini, Cauã Reymond, Paulo Gustavo Bastos, Eduardo Lago, Elias Gleizer, Vera Mancini, Helena Fernandes, Cesar Cardareiro e Johnny Massaro

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