
Cake, de Daniel Barnz
Comediante de mão cheia, Jennifer Aniston se viu enclausurada nas produções de comédia com o fim do seriado “Friends”. Não há nada de indigno em fazer carreira circulando em um único gênero, mas estava evidente que a intérprete de Rachel desejava alçar voos mais altos em papéis dramáticos. Foi exemplar em dois deles: Justine Last de “Por Um Sentido na Vida” e Olivia em “Amigas com Dinheiro”. Como Claire Bennett em “Cake – Uma Razão Para Viver”, Jennifer Aniston prova que é necessário mais cineastas interessados em explorar este seu lado mais denso.
A princípio, Daniel Barnz (realizador do péssimo “A Fera”) tinha suspeitas sobre o interesse de Jennifer Aniston em liderar o elenco que daria vida ao texto de Patrick Tobin, o segundo de uma carreira iniciada há quase 20 anos. Jennifer embarcou no projeto não somente como protagonista, mas também como produtora executiva, o que responde aos vários nomes célebres escalados, quase todos lhe servindo de degraus para o topo – extenuam-se a bárbara Adriana Barraza e Sam Worthington, aqui em boa interpretação.
Mesmo que os fãs de Jennifer Aniston tenham se excedido ao ver o seu nome fora da lista de finalistas ao Oscar de Melhor Atriz, é inquestionável a sua entrega de corpo e alma à Claire, uma mulher que se reveste de um sarcasmo que desconcerta como um meio de camuflar o luto que não a abandona. A sua boca ferina pode enganar, mas há as cicatrizes de seu corpo e as dores crônicas sempre presentes para alertá-la de que é preciso dar muitos passos para de fato se permitir a alguma paz de espírito.
Nada em “Cake” é revelado com clareza ao espectador, uma decisão que não somente respeita a postura rígida de Claire, como também garante ao filme alguns momentos que expressam uma verdade dilacerante. A comoção vem com as lágrimas evitadas de autopiedade, o flagelo para se locomover, o excesso de comprimidos consumidos para amenizar a fragilidade física e em uma cena final realmente espetacular.
A pergunta é como um texto que rende tantas virtudes ao tratar sobre o luto pode carregar consigo tantos problemas bobos, que anulam a veracidade e ferocidade da perda. Silenciá-la não isenta “Cake” de negligenciar dados básicos, como a capacidade de uma mulher inválida e divorciada em ter finanças que a fazem manter não somente uma casa com alguns luxos, como também uma empregada (vivida por Adriana Barraza). As aparições fantasmagóricas de Anna Kendrick também atrapalham, quebrando a fluência de uma narrativa que se beneficiaria sem elas. Resta aguardar um novo drama que seja capaz de enaltecer plenamente uma atriz que aprendeu que a experiência cinematográfica não se faz plena apenas com largos sorrisos, mas também com tragédias essenciais para a sua completude.

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