Resenha Crítica | Em Busca da Justiça (2016)

Jane Got a Gun, de Gavin O’Connor

O prejuízo de escrever sobre filmes é que o crítico de cinema geralmente conhece os bastidores de uma produção antes que o resultado seja apresentado ao público. As desavenças na equipe, os adiamentos e as modificações em cima da hora impostas por um estúdio são indícios de que haverá danos no que apreciaremos. Lançado direto em homevideo no Brasil, “Em Busca da Justiça” é esse tipo de filme que já vem cheio de rachaduras antes mesmo de ser avaliado.

Para quem não sabe, o filme seria originalmente dirigido por Lynne Ramsay, de “Precisamos Falar Sobre o Kevin”. No primeiro dia de filmagens, a cineasta simplesmente não apareceu no set, deixando todos em apuros. Especulou-se que Ramsay estaria descontente com os rumos do projeto em sua pré-produção, desfazendo o contrato ao concluir que o filme não teria resquícios de sua autoria.

Além de Ramsay, Jude Law, então substituindo Michael Fassbender, também se despediu da produção antes de gravar a sua participação. Em solidariedade à Ramsay, o diretor de fotografia Darius Khondji foi o último a se desvincular do faroeste. Restou a contratação emergencial de Gavin O’Connor por trás das câmeras, bem como a escalação de Ewan McGregor, um pau pra qualquer obra, como o vilão John Bishop.

Na premissa. Natalie Portman é Jane Hammon, apresentada em um momento delicado. Fora da lei, o seu marido Bill (Noah Emmerich) se envolveu em negócios escusos com Bishop, voltando ao seu lar baleado. Sem saber como agir e com uma filha pequena para proteger, Jane pede ajuda a Dan Frost (Joel Edgerton), um amor mal resolvido de seu passado que promete protegê-la dos capangas de Bishop – o brasileiro Rodrigo Santoro faz uma breve participação como um deles.

A ênfase nos imbróglios nos bastidores é importante por duas razões. A primeira vem a ser a desorganização da narrativa, deixando evidente que as coisas foram feitas às pressas para respeitar um cronograma. A presença dos flashbacks tenta ser justificada pela existência de um passado nebuloso vivido pelos protagonistas, mas o resultado só reduz a força de algo bem expresso em palavras e sugestões.

Já a segunda razão é como “Em Busca da Justiça” soa descaracterizado, indo de um western que privilegia a atuação de uma mulher em um ambiente árido e imoral para algo essencialmente masculino. Gavin O’Connor havia feito de “Livre para Amar” um filme de alma feminina. Aqui, por outro lado, ele transforma Natalie Portman em uma figura frágil, quase de porcelana, sempre a ofuscando ao contracenar com Joel Edgerton, repetindo a parceria iniciada com o bárbaro “Guerreiro”.

Para não dizer que “Em Busca da Justiça” é um fiasco completo, a meia hora final passa a ser mais incisiva ao concluir o desenho dos personagens, trazendo à tona um episódio trágico de Jane que revive o filme no exato momento em que os aparelhos que o mantinham pulsando estavam prestes a ser desligados. Caso fosse impregnado dessa energia em sua totalidade, estaríamos diante de um exemplar raro a driblar muito bem os empecilhos de sua concepção.

Resenha Crítica | A Intrometida (2015)

The Meddler, de Lorene Scafaria

A exigência das veteranas em Hollywood por bons papéis como protagonistas parece estar surtindo efeito em tempos em que a representatividade é a palavra de ordem no cinema. Isso porque tivemos nos últimos meses ao menos quatro filmes que se sobressaíram dentro do circuito independente com mulheres maduras: “Reaprendendo a Amar”, “Aprendendo com a Vovó”, “Hello, My Name Is Doris” e, agora, “A Intrometida”.

Grande atriz, Susan Sarandon vive no segundo longa-metragem de Lorene Scafaria (“Procura-se um Amigo para o Fim do Mundo”) a sua melhor protagonista desde “Anjo de Vidro”, drama natalino produzido em 2004. Na superfície, a sua Marnie tem semelhanças com a Carol Petersen de Blythe Danner em “Reaprendendo a Amar”. São duas mulheres na faixa dos 60 anos que não sabem muito bem como aplacar a solidão advinda da viuvez, reavaliando as próprias funções em uma vida que não as surpreende mais.

No entanto, as semelhanças param a partir do momento em que fica evidente a personalidade mais expansiva de Marnie, que não tem qualquer dificuldade em se meter em assuntos alheios, como bem deixa explícito o título do filme. É um comportamento que sufoca a sua filha única Lori (Rose Byrne), uma roteirista com dificuldades para superar o fim do relacionamento com Jacob (Jason Ritter), um jovem ator que já está com outra companheira.

Diante da exigência de Lori para que tenha a sua independência respeitada, Marnie passa a estreitar os laços com outras pessoas, tentando justificar a sua presença a partir de um auxílio por vezes financeiro para quem não tem a mesma fortuna que a sua. A primeira a contar com as suas generosas contribuições é Jillian (Cecily Strong), colega lésbica de Lori que teve um casamento feito às presas e que agora terá a chance de celebrar como deseja em uma festa de mais de 10 mil dólares totalmente bancada por Marnie. Outro a ter a sua ajuda é Freddy (Jerrod Carmichael), vendedor de uma loja da Apple que conta com as caronas de Marnie para se deslocar até a faculdade iniciada recentemente.

Mesmo partindo de um registro mais cômico do que dramático, surpreende como Lorene Scafaria (também autora do roteiro) não ridiculariza Marnie por estar em uma posição privilegiada diante dos personagens secundários. Claro que a protagonista terá o momento em que ouvirá algumas boas verdades sobre o seu comportamento a partir das consultas com a mesma terapeuta de sua filha, Diane (Amy Landecker). No entanto, isso não reduz a sua benevolência natural, a sua amabilidade com o próximo.

Outro fato que traz maior interesse ao filme é o seu tom de crônica, oferecendo uma perspectiva crível de pequenas cenas do cotidiano que irá gerar uma proximidade muito especial com o público da terceira idade, inclusive no interesse amoroso de Marnie com o policial aposentado Zipper (J.K. Simmons). Não que o espectador mais jovem seja incapaz de ter empatia por uma história que também destaca a cumplicidade na relação entre mães e filhas.

Resenha Crítica | Esquadrão Suicida (2016)

Suicide Squad, de David Ayer

Após o banho de água fria provocado por “Batman vs Superman: A Origem da Justiça”, “Esquadrão “Suicida” prometia acalmar os ânimos dos fãs propondo um tom diferente para este universo que a DC está construindo nos cinemas, uma espécie de resposta para a concorrência com a Marvel, esta já consolidada com a apresentação de seus heróis em filmes solos e a reunião destes para combater um inimigo em comum. Lamentavelmente, a tentativa tem pouco sucesso na tela.

Espécie de sequência direta para os eventos trágicos envolvendo a figura do Superman (Henry Cavill), “Esquadrão Suicida” inicia com a exposição dos planos da implacável Amanda Waller (Viola Davis), oficial da Agência Central de Inteligência que recomenda ao presidente a escalação de um time composto pelos maiores criminosos do país para combater uma entidade que pretende cobrir o mundo com trevas e converte humanos em soldados monstruosos.

O time? Floyd Lawton (Will Smith), conhecido como Pistoleiro, um matador de aluguel com uma filha de 11 anos; Harleen Quinzel (Margot Robbie), que adotou o nome Arlequina ao se tornar a companheira de Coringa (Jared Leto); George Harkness (Jai Courtney), o Capitão Bumerangue, Waylon Jones (Adewale Akinnuoye-Agbaje), o Crocodilo; Chato Santana (Jay Hernandez), apelidado de El Diablo e com habilidades em incendiar tudo ao redor; e Christopher Weiss (Adam Beach), também chamado de Amarra.

Ainda que Waller tenha implantado um chip capaz de causar a morte instantânea com o comando em um aplicativo sob o seu controle, é necessário trazer a bordo um líder capaz de supervisionar o temperamento de figuras que podem a qualquer momento trair o acordo de salvar o dia por uma redução de pena. Para isso, é escalado o soldado Rick Flag (Joel Kinnaman), namorado da arqueóloga June Moone (Cara Delevingne), possuída por um espírito milenar que cumpre um papel importante na ação. Outra adição que possui um bom caráter é Katana (Karen Fukuhara), japonesa extremamente habilidosa com espadas.

Com a leva inesgotável de mutantes e justiceiros zelando pela sobrevivência da humanidade, “Esquadrão Suicida” trazia como possibilidade essa visão pouco explorada em adaptações de quadrinhos em que a moralidade é um item distorcido, em que a prática do bem não parece uma alternativa clara para reverter a arquitetura do caos. Algo recentemente testado com sucesso em “Deadpool”, um modelo de anti-herói como protagonista.

O passo de “Esquadrão Suicida” sugeria ser o mais largo, com um material promocional regado na piração e com um diretor, David Ayer, que entende a linguagem dos personagens marginalizados, das escórias da sociedade. Porém, o peso da insanidade parece ter sobrecarregado somente os ombros de Margot Robbie, que supera todas as expectativas como uma delinquente que somente desejava ter uma vida de comercial de margarina com o seu amado de sorriso nefasto – o Coringa, aliás, deve ter ficado com a maior parte de sua participação perdida na ilha de edição, ao julgar por suas intervenções de caráter quase figurativo.

Além de uma encenação branda da violência, “Esquadrão Suicida” não é competente nem ao introduzir os seus personagens para o público. Confuso, o primeiro ato acredita que uma playlist de rock e cartilhas ininteligíveis dão conta de carregar todo o histórico de cada um. Mal resolvido é também um desejo de fazer um “Os Vingadores” dos vilões, forçando um sentimento de amizade e companheirismo que definitivamente inexiste. O efeito provocado por “Esquadrão Suicida” é o equivalente ao de uma embriaguez com cerveja sem álcool.