Já, Olga Hepnarová, de Petr Kazda e Tomás Weinreb
.:: 40ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.
Bem como no também recente “Christine”, é difícil tratar sobre “Eu, Olga Hepnarová” sem antecipar o dado que veio a transformar uma mulher comum em agente de um ato bárbaro. Portanto, assim como no caso da jornalista Christine Chubbuck, recomenda-se que nada se leia sobre Olga Hepnarová se a intenção é se surpreender com uma medida radical que a tirou do anonimato para entrar na história obscura da Tchecoslováquia.
Presente na programação Novos Diretores da última Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, a realização da dupla Petr Kazda e Tomás Weinreb bem poderia estar no Foco Polônia do mesmo evento caso não contasse com a sua origem como distinção. Bem como a produção polonesa contemporânea, a exemplo do oscarizado “Ida”, “Eu, Olga Hepnarová” ignora a fotografia em cores e enclausura a sua protagonista em uma razão 1.85 : 1 como um comentário sobre o seu perfil individualista.
Apresentando outros fatos sem revelar demais, pode-se dizer que Olga (a excelente Michalina Olszanska, muito parecida com uma jovem Natalie Portman) é também aquele tipo de pessoa que se vê desprezado por todos, da família aos colegas da escola e de trabalho. O sentimento de rejeição é ampliado principalmente por assumir o interesse por mulheres, transformando-a de uma pessoa com boas credenciais graças ao sobrenome que herdou para alguém que passa a viver à margem.
A pegadinha de uma cinebiografia como essa está no tratamento que pretende conferir a uma personagem real. Dependendo da falta de sutileza, o interesse pode pender mais na ação trágica encenada e menos no autor que a executou. De certo modo, é o que acaba acontecendo aqui, especialmente pelo exagero do roteiro também assinado por Kazda e Weinreb em enfatizar Olga como uma injustiçada pelas circunstâncias.
Em sua primeira hora, “Eu, Olga Hepnarová” não passa de um saco de pancadas para as pessoas que a cercam. Todos a tratam com grosserias, começando por sua mãe (interpretada por Klára Melísková) até a funcionária do caixa que diz não ter dinheiro para o pagamento do seu salário. Vale pela curiosidade em conhecer os percursos de alguém que não teve qualquer escrúpulo para pregar a sua lição torta.

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