Moonlight, de Barry Jenkins
Com o debate sobre a diversidade em Hollywood após o polêmico “Oscar so white” do último ano, várias produções com a defesa de bandeiras bem particulares se viram no curso de produção em um timing perfeito. Delas, “O Nascimento de Uma Nação” estava no centro das atenções, chegando a ser comprado pela Fox Searchlight por um valor recorde em Sundance, além de visto como a produção a se destacar na temporada de premiações.
O histórico particular pouco recomendável de seu realizador Nate Parker acabou vindo à tona, com a produção naufragando em suas chances de obter sucesso comercial e troféus. Portanto, “Moonlight: Sob a Luz do Luar” se apresenta agora com naturalidade ao assumir a posição de representatividade então reservada a “O Nascimento de Uma Nação”, ainda que o filme de Barry Jenkins, infinitamente superior ao de Parker, tenha intenções distintas em seu registro sobre um protagonista inserido em uma comunidade de figuras desfavorecidas pelas circunstâncias.
A partir de traços autobiográficos, Jenkins constrói um protagonista, Chiron, que será acompanhado em três fases distintas. Inicialmente, o vemos na pele de Alex R. Hibbert, uma criança deixada à própria sorte por sua mãe Paula (Naomie Harris), uma viciada em drogas. O seu porto seguro será Juan (Mahershala Ali, ótimo, ainda que em um favoritismo exagerado nas premiações), um traficante bem intencionado, e Teresa (Janelle Monáe), sua companheira.
No segundo ato, Chiron é um adolescente vivido por Ashton Sanders. Além do fardo de enfrentar a sua mãe ser ainda maior, o garoto precisa lidar com as inadequações da idade, explicitados pela sua confusão sexual e o bullying sofrido na escola. Por fim, Chiron amadurece como Trevante Rhodes e chega ao terceiro e último ato da história como uma espécie de reprise de Juan, acertando as contas com Paula e Kevin (André Holland), este um indivíduo que exerceu grande influência em seu passado.
A partir de uma figura masculina cheia de nuances e mutações, “Moonlight” promove uma radiografia barra-pesada e sem perspectivas de uma Miami com tonalidades fortes e deprimentes da fotografia de James Laxton, uma espécie de versão periférica e igualmente fascinante de Christopher Doyle, braço direito do realizador chinês Wong Kar-Wai. Entre lares desfeitos e um mundo externo perigoso, Chiron parece não ter qualquer escapatória a não ser a de se corromper pelo meio em que vive.
A redenção encontrada aqui vem a ser a afetividade discreta que se revela em meio a rispidez da vida. E Jenkins a encena com uma intimidade de deixar os nervos à flor da pele, seja por uma troca de carícias à beira-mar, pelas mãos que preparam uma refeição ou pelo uso da música como elemento narrativo, como o jukebox que reproduz “Hello Stranger”, de Barbara Lewis. Em uma existência de ranhuras como a de Chiron, um simples toque humano faz toda a diferença.

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