Bikini Moon, de Milcho Manchevski
.:: 41ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.
Com a última virada do século, os dispositivos eletrônicos invadiram de imediato o nosso cotidiano. Com eles, o contato humano se tornou mais virtual do que presencial, conectando a todos com um clique de distância. Vem com isso o modo como cada um se coloca no mundo, explicitando a sua privacidade ou invadindo a alheia.
É na condição do alvo explorado que Bikini (Condola Rashed) irá se perceber, a partir do momento em que se transforma na protagonista de um documentário tocado por uma equipe obstinada a produzir uma obra de interesse para correr o circuito de festivais de cinema. Bikini é mesmo um achado: claramente instável, a moça tem um passado traumático como soldada no Iraque, perdeu a guarda de sua filha e hoje vive nas ruas.
Idealizadores do projeto, o casal Kate (Sarah Goldberg) e Trevor (Will Janowitz) permite até mesmo que Bikini ocupe um quarto disponível em sua casa, uma moeda de troca para que autorize que as câmeras a flagrem a cada instante. Se há boas intenções, as consequências tratarão de questioná-las, especialmente pelo envolvimento emocional de Kate assim que as coisas passam a sair do controle profissional.
Vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza e finalista ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro por “Antes da Chuva”, o realizador macedônico residente em Nova York Milcho Manchevski quebra um hiato de sete anos nos longas-metragens com uma proposta experimental em “Bikini Moon”. O documentário dentro da ficção converge em algo que não somente confunde em linguagens, mas também nas percepções.
O resultado é revigorante pela representação da confusão de Bikini com todos os usos possíveis de suportes com captações bem específicas (do registro documental cru à estilização da ficção) e também pela implosão de uma personagem que culminará até mesmo no surgimento de um realismo fantástico inesperado. Eleva-se não somente a experiência, como também a conexão com uma mulher com a qual passamos a mergulhar em sua confusão.

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