Ex-Pajé, de Luiz Bolognesi

Lançado comercialmente em 2017, o documentário “Martírio” exibiu uma pesquisa desoladora da parte de seu realizador Vincent Carelli, que por anos acompanhou o encolhimento de uma comunidade indígena a partir do avanço do agronegócio. Já Luiz Bolognesi, que recentemente assinou os roteiros das ficções “Bingo: O Rei das Manhãs” e “Como Nossos Pais“, evidencia em “Ex-Pajé” uma fenômeno sutil, mas igualmente cruel para o extermínio da cultura indígena no Brasil.

Mais precisamente, o etnocídio, usando no letreiro inicial de seu documentário as palavras do antropólogo Pierre Clastres: “enquanto o genocídio assassina os povos em seu corpo, o etnocídio os mata em seu espírito”. Pois é o que aconteceu com a figura de interesse central do registro, Perpera, hoje, como o título entrega, um ex-pajé.

Bolognesi a princípio o acompanha como se Perpera estivesse integrado à nossa sociedade, flagrando-o da ida às compras em um supermercado até o retorno em uma aldeia com uma nova geração de índios já familiarizada com os recursos tecnológicos, incluindo meninos viciados em jogos eletrônicos adaptados para smartphones. Muito distante da figura jovem de poderoso pajé, esta transformada com a intromissão da crença evangélica que determinou o conhecimento de Perpera e o seu contato com a natureza como profanos.

Laureado com uma menção honrosa na última edição do Festival de Berlim e premiado no 23º É Tudo Verdade, “Ex-Pajé” é uma nova adição a este núcleo de cinema documental e de ficção com engajamento social em seu foco em uma comunidade que se desintegra com velocidade, deixando importante contribuição na denúncia no domínio de brancos sobre índios. Como cinema, fica devendo com a frouxidão narrativa e um olhar de observador nem sempre astuto, ainda que por vezes camuflado por uma bela composição de planos.

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