Não Se Aceitam Devoluções, de André Moraes
Hoje com aproximadamente 60 quilos a menos, o comediante Leandro Hassum pode experimentar uma virada na carreira. Antes reconhecido por tipos que impunham uma presença física cômica ao ponto de caricaturar o homem gordo, agora o ator de 44 anos nascido em Niterói vai precisar recorrer a outros atributos e as caretas não bastam.
Nos 99 minutos de “Não Se Aceitam Devoluções”, Hassum prova que não se renovou. A circunferência como recurso de humor não está mais lá. Mas o protagonista da trilogia “Até Que a Sorte Nos Separe” continua o mesmo ao forçar o sorriso e ao esganiçar a voz, comportando-se de um modo pouco conveniente com o drama que irá viver.
Aqui, ele interpreta o mulherengo Juca Valente. Com tantas relações casuais, deduz-se que não demoraria para alguma parceira bater em sua porta anunciando uma gravidez. Pois é exatamente o que acontece e Brenda (a cubana Laura Ramos, em boa interpretação) foge assim que deixa a sua filha Emma aos cuidados dele.
Os anos se passam e Juca se reinventou como dublê em filmes de ação em Hollywood. Mas continua o mesmo bobalhão na vida privada. Vive dando a desculpa para a sua filha que fará manutenção no colchão da vizinha apenas para não dizer que irá transar com ela e o seu instinto super protetor não releva a imaturidade como homem adulto, vivendo em Los Angeles sem ao menos saber falar ou entender inglês.
Se a história lhe parece familiar, é porque ela já foi contada em 2013 no mexicano “Não Aceitamos Devoluções”. Porém, mesmo com a fórmula testada e aprovada (Eugenio Derbez se transformou em astro graças ao filme) e o pedigree de um estúdio como a Fox, “Não Se Aceitam Devoluções” é precário. Pior que Hassum é a intérprete de sua filha, a pequena Manuela Kfouri, artificial no humor e no drama.
Também são claras as camuflagens cenográficas para criar a ilusão de que estamos em uma terra estrangeira, as captações de cenas de segunda unidade feitas com qualidade inferior de imagem e até mesmo um efeito visual canhestro da Emma bebê rumando para uma piscina. Quando tais detalhes não se fazem presentes, o realizador André Moraes (de “Entrando Numa Roubada”) adota uma estética mais televisiva do que cinematográfica, com a câmera sempre sufocando o seu elenco e tendo pouco envolvimento com o entorno.
Considerando tudo isso, seria injusto não pontuar que ao menos há algo terno reservado para a meia hora final, ainda que o plot lésbico soe preconceituoso. Isso porque a história fermenta para os momentos derradeiros uma virada surpreendente, autorizando inclusive que Hassum flerte finalmente com o drama e apresentando um empenho satisfatório. Entretanto, tal mérito deve ser depositado mais na conta de Derbez e menos em um esforço quase inexistente de Moraes em agregar alguma novidade a uma história já adaptada pelos franceses, turcos e, logo mais, pelos americanos.

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