Canastra Suja, de Caio Sóh
No baralho, o canastra suja é a mão formado por uma sequência finalizada com um curinga. Mesmo quem nada entende de jogos de azar, compreenderá o termo durante a costura de Caio Sóh para o seu quarto longa-metragem. Como faz questão de ilustrar, é um jogo de cartas o que encena, em que os componentes de uma família se movem em um tabuleiro de dissimulações, interpretações equivocadas dos fatos e golpes do acaso.
Cabeça da família, Batista (Marco Ricca) trabalha como manobrista em um hotel de luxo e tem sérios problemas com alcoolismo. Parece o pivô de todas as crises que se abatem em sua esposa Maria (Adriana Esteves), nas filhas Emilia (Bianca Bin) e Rita (Cacá Ottoni) e, principalmente, no filho Pedro (Pedro Nercessian). Ainda que o prólogo flagre a tentativa de Batista em se reabilitar, o que se vê paulatinamente adiante é um castelo de cartas desabando.
No desenrolar da narrativa, Caio Sóh acompanha de modo nu e cru os segredos e mentiras que sustentam cada componente da família, do plano de Emilia em firmar um relacionamento com o seu chefe e o de trazer a sua irmã autista consigo até os subterfúgios que Maria recorre para enfrentar a barra dos embates entre Batista e Pedro.
Quase tudo em planos contínuos, nos quais Sóh permite uma dinâmica em que resulta em desempenhos viscerais de todo o elenco central. Algo nem sempre recorrente no cinema nacional, hoje tão dedicado a preencher com filtros uma realidade ou a conflitá-la com o formato híbrido do fato com a ficção.
É um dos grandes destaques da produção brasileira, chegando ao circuito comercial com dois anos de atraso e reacendendo com o seu fracasso o problema da exibição em um mercado dominado pela concorrência estrangeira. O senão vem apenas na forma de um personagem secundário, em que o acúmulo dos conflitos é centralizado com pouca verosimilhança.

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