O Animal Cordial, de Gabriela Amaral Almeida
Com vasto currículo como roteirista, Gabriela Amaral Almeida contabiliza também vivências atrás das câmeras no formato de curtas-metragens. Fascinada por histórias obscuras, flertou com as perturbações psicológicas e o terror propriamente dito de sua estreia em “Náufragos” (2010) até “Estátua!” (2014), este premiado no Festival de Brasília.
A primeira experiência como realizadora de um longa-metragem enfim chega com “O Animal Cordial”, aqui contando com o aval de Rodrigo Teixeira, o produtor brasileiro do momento. É onde finalmente assume o perigo e a violência de modo mais frontal, tingindo algumas cenas com um banho de sangue pouco habitual de se testemunhar em nosso cinema.
Após um primeiro ato em que estabelece um cenário, os seus personagens e um contexto para mantê-los unidos, Gabriela Amaral Almeida, que também assina o roteiro, se compromete com um ponto de virada arriscado para tecer um comentário interessante. Trata-se das divergências que acontecem quando representantes de grupos sociais tão distintos se veem enclausurados em uma espécie de limbo.
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Entrevista com Murilo Benício e Gabriela Amaral Almeida sobre “O Animal Cordial”
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Assim, uma tentativa de assalto liderada pelo personagem de Humberto Carrão logo testa as posições hierárquicas de comportamentos que simulamos em circunstâncias do cotidiano. Como a vulnerabilidade que Verônica (Camila Morgado, confirmando que é uma de nossas mais preciosas atrizes) demonstra minutos após Sara (Luciana Paes, em merecido papel de protagonista após “Sinfonia da Necrópole“), a garçonete do restaurante que serve de palco para “O Animal Cordial”, já não mais estar na função de subordinada.
Automaticamente, Inácio (Murilo Benício), o proprietário do estabelecimento, também envereda para outras posturas mais extremas, reflexo de um homem que é cordial com os seus clientes ao passo em que tem atritos com a cozinha liderada por Djair (Irandhir Santos), que há semanas se queixa de expedientes estendidos de trabalho.
É um contexto excelente para executar uma narrativa de horror e Gabriela Amaral Almeida o faz com uma sofisticação singular, da coordenação do elenco à misé en scene, da atmosfera envolvente que estabelece ao domínio de aspectos técnicos complexos, como os efeitos práticos.
Porém, talvez pelo costume em orquestrar breves histórias, é preciso apontar que há descompassos, da inconstância de Sara aos encontros privados que esta tem com Inácio, regadas de um impacto visual que a certa altura não concatenam com o todo.
De qualquer modo, é uma baita estreia e que amplia as expectativas quanto ao segundo trabalho da realizadora em longa-metragem: “A Sombra do Pai”, com première confirmada para o Festival de Brasília e lançamento comercial planejado para 2019.
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“O Animal Cordial”: entrevista com Iradhir Santos, Luciana Paes e Humberto Carrão

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