Como é Cruel Viver Assim, de Julia Rezende
Quando Julia Rezende levou para o cinema a sua atração televisiva “Meu Passado Me Condena” e posteriormente investiu imediatamente em uma sequência, a impressão que passou é a de que traçaria uma carreira parecida com a de um Roberto Santucci. Estaria assim investindo exclusivamente as suas energias em comédias com fórmulas fáceis, em que dificilmente conseguiria impor alguma autoria de fato.
Felizmente, a carioca de 32 anos, filha de Sergio Rezende com a produtora Mariza Leão, contestou a impressão com “Ponte Aérea” (2015) e “Um Namorado para Minha Mulher” (2016), em que lida com pontos de originalidade sem necessariamente se desvincular de um gênero afável. Em “Como é Cruel Viver Assim”, no entanto, as qualidades de Julia estão mais perceptíveis, agora flertando com o drama quando as resoluções do texto rumam para caminhos mais obscuros.
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Entrevista com os atores Marcelo Valle e Fabiula Nascimento sobre “Como é Cruel Viver Assim”:
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Aqui, a diretora se apropria da peça homônima de Fernando Ceylão (encenada em 2014) para exibir a formação de um quarteto que topa participar do sequestro de um figurão. Taxista recém-desempregado, Vladimir (Marcelo Valle, o único a reprisar o papel dos palcos) convence a sua esposa Clivia (Fabiula Nascimento), dona de uma lavanderia mequetrefe, a participar do crime, em seguida também recrutando Regina (Debora Lamm) e Primo (Silvio Guindane).
O problema aqui é que nenhum deles sabe muito bem o que está fazendo, arquitetando um plano com mil chances de dar errado. Isso faz “Como é Cruel Viver Assim” assumir um ponto de partida curioso, pois a história não se concentra em um sequestro, mas em sua fermentação.
Verdade que os 107 minutos ficam pesados para a digestão, principalmente em um segundo ato de ritmo claudicante. Ainda assim o carisma e química do elenco central fazem a diferença, cada um personificando tipos pitorescos que não resvalam para o humor fácil.
Também é curioso perceber como o longa de Julia Rezende encontra correspondência com “Um Homem Só“, trabalho de sua colega Cláudia Jouvin. Evidentemente, o seu “Como é Cruel Viver Assim” de nada tem de ficção científica. Entretanto, o cinza da fotografia de Dante Belluti encontra nos cenários periféricos e nas faces que os habitam um sentimento de conformidade diante de existências sem perspectivas de um futuro além do cruel que dão ao todo uma singularidade inesperada.
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Entrevista com a diretora Julia Rezende e os atores Debora Lamm e Silvio Guindane sobre “Como é Cruel Viver Assim”:

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