Ferrugem, de Aly Muritiba
O cineasta Aly Muritiba é extremamente curioso em avaliar as consequências do registro de uma intimidade a partir de dispositivos tecnológicos, transformados em verdadeiras armas para a destruição de reputações. Lembra muito o início de carreira do canadense Atom Egoyan, em que o fenômeno dos vídeos caseiros existente graças às câmeras portáteis e videocassetes revelava também uma sordidez entre quatro paredes.
Se em “Para Minha Amada Morta” o protagonista interpretado por Fernando Alves Pinto despertava em si um instinto de vingança ao descobrir uma VHS que continha a traição cometida por sua falecida esposa, em “Ferrugem” temos novamente uma gravação sexual como pontapé para o desenvolvimento de uma narrativa. Aqui, no entanto, a consequência é coletiva e, por isso mesmo, mais perigosa.
Tati (Tifanny Dopke) é uma adolescente que está investindo em um colega de sala, Renet (Giovanni de Lorenzi), depois de um rompimento com o namorado. Em uma noite com os amigos, ela perde o seu celular e, no dia seguinte, tem o vídeo da transa com o ex vazado. Primeiro, vem a hostilização na escola. Depois, a certeza de que não há como desfazer a coisa quando o arquivo é publicado em sites pornográficos.
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+ Entrevista com Aly Muritiba, diretor e corroteirista de “Ferrugem”:
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Escrito em parceria com Jessica Candal, Aly Muritiba faz um filme dividido em duas partes. A primeira é excepcional e sem concessões, exibindo com perícia um universo adolescente sem filtros e no qual os adultos são presenças inconstantes. Lamentavelmente, as qualidades são se fazem presente na segunda.
Excetuando Raquel, a mãe de Renet interpretada por Clarissa Kiste que representa a culpa que mulheres carregam quando são vítimas ou quando assumem escolhas radicais, nada há de bom nesse momento de “Ferrugem”, concentrando o peso do que aconteceu com Tati em Renet, um personagem aborrecido pelo qual vamos progressivamente deixando de nos importar. Se o registro pretensamente intimista dessa “Parte 2” fosse repensada para o contexto mais amplo da “Parte 1”, é certo que “Ferrugem” de fato impactaria com o seu conto moral.
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+ Entrevista com a atriz Clarissa Kiste sobre “Ferrugem”
+ Entrevista com Tifanny Dopke, Giovanni de Lorenzi e Nathalia Garcia sobre “Ferrugem”

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