Marcha Cega, de Gabriel Di Giacomo

Há três meses, a cineasta Natasha Neri, em parceria com o seu marido e diretor de fotografia Lula Carvalho, lançou o documentário “Auto de Resistência” causando grandes estrondos na opinião pública. Desde a sua première no festival É Tudo Verdade deste ano, materiais promocionais e redes sociais da produção têm sido alvos de ataques de civis que se posicionam favoráveis à truculência policial, ela subindo os índices de homicídios de inocentes de modo gritante.

Mesmo com intensidade mais branda, é certo que Gabriel Di Giacomo também se reconheceu mexendo em vespeiro ao relembrar a perigosa ação policial que chegou a roubar o protagonismo dos protestos que tomaram as ruas em 2013 a partir do aumento da passagem do transporte público. Vem assim em boa hora o seu documentário “Marcha Cega”, este tendo a sua primeira exibição nacional no Cine-PE.

Como toda narrativa precisa de uma perspectiva para que todas as suas pontas sejam atadas ao final, “Marcha Cega” encontra na figura do fotógrafo Sérgio Silva o seu potencial protagonista. Enquanto fazia uma cobertura fotográfica das manifestações paulistanas, foi ferido gratuitamente por um policial militar. A consequência foi a perda integral da visão em um de seus olhos.

São vários depoentes que compartilham os episódios traumáticos que viveram em um passado extremamente recente, de mulheres assediadas por agentes até um grupo de jovens que foi preso com a justificativa de que portava materiais danosos para usar nos protestos. Além delas, Di Giacomo também convida figuras públicas para enriquecer o debate, como o ex-senador Eduardo Suplicy e Luiz Eduardo Soares, antropólogo e autor de “Elite de Tropa”.

Além de expor o cenário aterrador de mobilizações que se iniciaram pacíficas, “Marcha Cega” é também informativo principalmente ao compartilhar os procedimentos e como todos são quebrados na contenção das massas. Com as tensões da polarização das eleições ainda em curso, vem mais um registro que lamentavelmente será reprisado com ainda mais gravidade nos próximos tempos obscuros que nos aguardam.

+ Entrevista com Gabriel Di Giacomo, diretor do documentário “Marcha Cega”

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