Último lançamento do Projeta às 7, iniciativa da distribuidora Elo Company com a Rede Cinemark Brasil que visa ofertar ao público do circuito de centros comerciais um recorte da produção nacional independente e alternativa, o documentário “Marcha Cega” vem para aquecer o debate sobre a repressão policial contra civis inocentes. Revelador, não deve em impacto diante de “Auto de Resistência“, lançado há três meses nos cinemas.
Em entrevista cedida por e-mail após a pré-estreia do filme no dia 24 de setembro no Cinemark Cidade São Paulo, Gabriel Di Giacomo elucida algumas questões adicionais, como a sua transição de um registro cômico para o dramático, a escolha do fotógrafo Sérgio Silva como a figura central da narrativa e as hostilizações sofridas em redes sociais desde a exibição de “Marcha Cega” no Cine-PE deste ano.
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A política é um tema que sempre esteve presente em sua trajetória como diretor e roteirista, geralmente sob um viés satírico. “Marcha Cega” marca não somente a sua estreia no cinema, como também uma mudança radical de tom. Como avalia essa transição?
Sempre que me envolvo com alguma produção, quero que ela cause algum impacto ou reflexão na sociedade, seja no humor ou em um documentário. Então foi uma transição natural. Na Salvatore Filmes, já temos diversos projetos de longas de drama em desenvolvimento e uma série documental em fase de finalização. Gosto de trabalhar nesses dois caminhos: o riso ou o choque com a realidade.
Dentro de inúmeros depoentes, Sérgio Silva surge como uma figura central de seu documentário, um elo para todas as perspectivas exploradas. Em qual estágio de desenvolvimento de “Marcha Cega” o fotógrafo lhe apareceu como esse personagem que ata todos os nós?
Desde o início do projeto queríamos que o fotógrafo Sérgio Silva participasse do filme. Ele é um ícone da resistência contra a truculência do Estado e o caso dele funcionava muito bem para a estrutura narrativa, já que ele foi ferido em 2013 e o processo que moveu contra o Estado se desenrolou até 2017, onde ele foi considerado culpado por se colocar numa situação de risco. O caso é um retrato da perversa estrutura de segurança pública em diversas instâncias.

“Marcha Cega” chega ao público em um momento crucial, no qual inúmeros protestos tomam as ruas às vésperas dos turnos eleitorais. Como avalia a cobertura da mídia, especialmente quanto até mesmo representantes de grandes veículos de comunicação se tornaram vítimas da repressão policial a partir das manifestações de 2013?
Eu acredito que a grande mídia ainda faça uma cobertura superficial das manifestações. Não se vê um enfoque na vítima ou um aprofundamento e acompanhamento dos casos. Para as vítimas é muito importante que a imprensa acompanhe os casos como uma forma de proteção e pressão por justiça.
Há exatamente três meses, entrevistei Natasha Neri no lançamento do seu documentário “Auto de Resistência”, que explora os homicídios cometidos nas favelas cariocas por policiais. A diretora segue hostilizada virtualmente por usuários em redes sociais que são favoráveis às ações praticadas por agentes da corporação. Tem vivenciado algo semelhante desde a exibição de “Marcha Cega” no Cine PE?
Assim que começamos a postar os materiais do filme nas redes sociais, o conteúdo foi muito hostilizado. Infelizmente, esta é a dinâmica do momento que estamos vivendo: a coação sistemática de quem tem uma opinião divergente. Ou é confronto ou o conteúdo fica preso numa bolha de concordância e a realidade segue imutável.
Ao fim de “Marcha Cega”, você aponta que diversas autoridades e entidades do Estado declinaram os convites para ser entrevistadas. Com o seu documentário em circulação, elas seguem silenciadas? Sofreu delas no curso da realização alguma tentativa de censura?
Nós queríamos que o filme fosse um debate sobre segurança pública, até para não soar como militante e panfletário, mas parece que os órgãos oficiais não estão abertos ao diálogo com a sociedade. A nossa democracia se resume a apertar um botão a cada quatro anos. A sociedade não é convidada para dialogar sobre os temas de seu interesse e conosco seguiu a mesma dinâmica. O nosso documentário propõe discutir toda a estrutura de segurança pública que precisa sofrer uma real democratização e abandonar os resquícios da Doutrina de Segurança Nacional. Por fim, procuramos representar essa visão do lado policial através do tenente-coronel Adilson Paes e Souza, que é um policial reformado e já viveu a corporação, e de Luiz Eduardo Soares, um dos maiores especialistas em segurança pública no Brasil. Ele já fez grandes pesquisas com os policiais. Essas apontam o quanto esse sistema não atende aos interesses dos agentes de segurança.
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+ Resenha sobre o documentário “Marcha Cega”
* a foto do realizador é um registro de Mathilde Missioneiro, da Ponte Jornalismo

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