Ghostland, de Pascal Laugier

Há exatamente 10 anos, o cineasta canadense Pascal Laugier passou a ser um dos cineastas em que os aficionados pelo terror começaram a acompanhar com entusiasmo a partir de “Mártires”, um dos filmes mais violentos e explícitos deste jovem século. A verdade é que os dois longas que produziu posteriormente são definitivamente mais interessantes: “O Homem das Sombras” e agora “A Casa do Medo: Incidente em Ghostland”.

É uma pena que ambos tenham apresentado problemas de bastidores que comprometeram o acesso ao público. Protagonizado por Jessica Biel, “O Homem das Sombras” teve como inspiração a lenda do Slender Man, subvertendo-a para um conto de horror moral muito curioso e que destroça ainda mais o embuste exibido neste ano com roteiro de David Birke. Acabou atravessando entraves de pós-produção que resultaram em um lançamento em homevideo discreto pelo mundo.

Já o streaming foi o destino de “A Casa do Medo: Incidente em Ghostland” depois de uma controvérsia: a negligência no set de Laugier e a sua equipe na elaboração de uma cena envolvendo espelhos, resultando em um acidente que deixou uma cicatriz permanente na face da jovem atriz Taylor Hickson. O desconhecimento do ocorrido e o apelo do filme, entretanto, não comprometeram a chegada de “Ghostland” às salas brasileiras.

Na premissa, Pauline (a cantora Mylène Farmer, que já fora dirigida por Laugier no clipe “City of Love”) se move com as duas filhas Beth (Emilia Jones) e Vera (papel de Hickson) para a propriedade que herdou da irmã. Vai para ela ouvindo notificações em estações de rádios e em jornais sobre uma dupla de maníacos que estaria matando pais e assumindo a guarda de seus rebentos.

Com isso sinalizado, não poderia acontecer outra coisa a não ser um ataque a esse trio de mulheres, que superam o episódio com um monte de sequelas psicológicas. Enquanto Beth (agora interpretada por Crystal Reed) exorciza os demônios atendendo a vocação de escritora, Pauline continua vivendo na casa com uma Vera (na fase adulta feita por Anastasia Phillips) perturbada que rasteja pelos cômodos como alguém internada em um hospício.

Laugier vai costurando “A Casa do Medo: Incidente em Ghostland” a partir de uma série de influências que rende resultados surpreendentes. Além de corresponder a uma cinematografia que encena o perigo sem se preocupar com censura, “Ghostland” ainda emula “O Massacre da Serra Elétrica”, o universo literário de H. P. Lovecraft e até mesmo as convenções do filão de bonecos do mal – há um aqui de olhos esbugalhados e luminosos que talvez seja o mais assustador desde Annabelle.

Por fazer algo autêntico dentro de tantas características reconhecidas, é de se lamentar que “Ghostland” ainda assim precise recorrer aos aborrecidos jump scares a cada 10 minutos. Laugier francamente não precisaria pregá-los toda vez que uma personagem espia o buraco de uma fechadura.

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