Resenha Crítica | Cervejas no Escuro (2023)

Curta-metragista nascido em Diadema, Tiago A. Neves está há quase uma década em atividade com projetos de micro-orçamento, nos quais muitas vezes a dramaturgia foi amparada na vivência de gente anônima, por vezes sob uma redoma invisível de influência política.

Ao alçar voos mais altos submetendo o seu segundo longa-metragem, “Cervejas no Escuro”, na Mostra Aurora de Tiradentes, estende o discurso para o registro como possibilidade de reverter apagamentos. De longe o mais afável da seleção, o filme traz Edna (a luminosa Edna Maria) como figura central, uma senhora humilde e viúva.

Ainda que não tenha vivências com o fazer cinematográfico, quer de algum modo preservar as memórias felizes com o amado a partir de um filme que deseja submeter para um festival. Filmes sobre filmes costumam ter resultados cativantes, sobretudo com a exibição das complicações que estão por trás da construção de cenas. Há também aqueles que preferem estar do lado do espectador, que pode se reconhecer em narrativas ficcionais.

Ao seu modo, “Cervejas no Escuro” é eficiente nessas duas frentes. Com uma junção de atores profissionais com outros sem muitos registros de experiência, Tiago A. Neves promove uma dramédia em que circunstâncias simples do projeto da protagonista têm a encenação comprometida pela inaptidão dos envolvidos, quando não pelos egos expondo credenciais não compatíveis.

A exemplo de uma extensa e hilariante sequência onde Edna instrui um casal de intérpretes a simular um beijo afetuoso que experimentou com o marido na juventude. Por outro lado, o desejo de materialização de recordações de Edna, usando ferramentas audiovisuais, também é capaz de extrair o que há de mais puro em seus colegas de empreitada, alguns definitivamente muito engajados no cumprimento do cronograma de filmagens para que a sua obra amadora seja apresentada ao público a tempo.

No entanto, se como comédia “Cervejas no Escuro” é bastante funcional, há uma falta de tato em lidar com elementos mais densos. Ainda que o luto de Edna receba uma resolução satisfatória, limites muito evidentes são percebidos assim que o longa expõe uma vontade de amplitude de incômodos individuais como se fossem coletivos.

Ao visitar aqui o passado de um século atrás da Paraíba, precisamente a Revolta de Princesa, “Cervejas no Escuro” caminha com tropeços pelo didatismo empregado e por uma desconexão entre esse episódio histórico e o que Edna atravessa em sua contemporaneidade dentro desse mesmo cenário. Talvez uma nova aventura de Tiago A. Neves como diretor e roteirista o prepare para revisitar alguns dos temas de “Cervejas no Escuro” com mais precisão.

★★★
Cervejas no Escuro
Direção de Tiago A. Neves
Assistido na 26ª Mostra de Cinema de Tiradentes

Resenha Crítica | Andança – Os Encontros e as Memórias de Beth Carvalho (2022)

A morte de Beth Carvalho, em 30 de abril de 2019, definitivamente deixou um luto como nunca antes sentido no samba, tendo sustentado dentro do gênero o título de madrinha. É como se ampliasse o pressentimento desolador de que entramos em uma etapa da história de despedidas de expoentes da música brasileira.

A ausência de Beth também faz o Carnaval se transformar em um evento menos festivo, ainda que as músicas que interpretou sejam eternas. No documentário “Andança – Os Encontros e as Memórias de Beth Carvalho”, o diretor Pedro Bronz mergulhou em um longo processo de avaliação de mais de duas mil horas de materiais de arquivo, muitos deles contidos em gravações raras presentes em fitas VHS.

Com o conteúdo rico, foi tomada uma medida arriscada, mas que se mostrou correta: a decisão de não intercalar os recortes com depoimentos de terceiros. Com tudo condensado em 112 minutos, o filme sempre evidencia uma Beth Carvalho extremamente altiva, que não se deixa contaminar por amarguras nem em seus últimos momentos, em que precisou realizar apresentações deitada por conta de um estado físico debilitante.

Outra característica realçada é a de uma Beth que incutia opiniões fortes em um contexto complexo para artistas mulheres. Bem-quista por seus companheiros pretos, ela não esteve em uma posição de apropriação, mas de exaltação, defendendo a negritude como protagonista da brasilidade.

Portanto, o que temos em “Andança” é algo que entusiasma convertidos com registros inéditos, ao mesmo tempo em que evidencia as maiores virtudes de Beth Carvalho para os não nascidos durante o seu ápice como cantora.

★★★
Andança – Os Encontros e as Memórias de Beth Carvalho
Direção de Pedro Bronz
Assistido na 26ª Mostra de Cinema de Tiradentes

Resenha Crítica | O Preço Que Pagamos (2022)

O Preço Que Pagamos

Ativo desde 1996, o diretor japonês Ryûhei Kitamura conseguiu chamar a atenção do ocidente graças ao mercado de home video, no qual registrou sucessos como “Azumi” (2003) e “Godzilla: Batalha Final” (2004).

O curioso foi a conversão e o reconhecimento como realizador de horror quando foi convidado para a responsabilidade de conduzir a adaptação de um conto de ninguém menos que Clive Barker, autor de “O Trem da Carne da Meia-Noite”, que rendeu em 2008 “O Último Trem”, protagonizado por um Bradley Cooper antes de estourar como astro hollywoodiano.

Foi o seu melhor momento falado em inglês, pois, 14 anos depois, Kitamura investe em mais um exemplar do gênero já demonstrando um preocupante esgotamento criativo, ainda que fãs do slasher possam reconhecer virtudes em “O Preço Que Pagamos”, sobretudo em sua principal ameaça: Jodi, interpretada por Erika Ervin, que ostenta dois metros de altura.

Mesmo que rastros dessa personagem possam ser visualizados no prólogo de O Preço Que Pagamos”, a primeira metade da narrativa é dedicada ao trio de bandidos Cody (Stephen Dorff), Alex (Emile Hirsch) e Shane (Tanner Zagarino).

Após um assalto desastroso no qual um quarto participante foge com o seu furgão ao ouvir disparos, sendo que um deles atinge a perna de Shane, acham que a estratégia mais inteligente é fazer Grace (Gigi Zumbado) de refém, que estava no local onde tudo aconteceu.

Com apenas 85 minutos, “O Preço Que Pagamos” dedica 40 deles a uma embromação que inclui Cody tentando posar de sujeito bem-intencionado, Alex sendo petulante (inclusive, o papel seria melhor servido por Stephen Dorff em vez de Emile Hirsch) e Grace perdida quase como se estivesse desenvolvendo a Síndrome de Estocolmo.

As coisas progridem com o reaparecimento de Jodi e um plot bizarro sobre vítimas sacrificadas por um doutor interpretado por Vernon Wells, que se considera um Deus. Assim se impõe uma carnificina ultraexagerada, embora Kitamura já tenha sido mais explícito e engenhoso em sua encenação com orçamentos mais amplos, como quando idealizou o ponto de vista de um passageiro decapitado em “O Último Trem”.

★★
The Price We Pay
Direção de Ryûhei Kitamura
Disponível no Looke

Resenha Crítica | Holy Spider (2022)

Holy Spider

Embora “Holy Spider” seja comercializado por determinados mercados como um filme de serial killer, existem muitas implicações e riscos em seu registro sobre uma história verídica que o elevam ao patamar de espelho cruel de uma realidade ainda vigente. De imediato, temos uma obra que se posiciona com denúncias sobre uma sociedade e a sua visão de homens que usam a religião como instrumento de poder contra mulheres.

Com fama internacional alcançada com o ótimo “Border”, o realizador Ali Abbasi nasceu no Irã em 1981. Adulto, emigrou para a Suécia com o propósito de estudar Arquitetura, mudando radicalmente de ares cinco anos depois ao se graduar em uma escola de cinema da Dinamarca. A trajetória é importante de ser enfatizada, uma vez que Abbasi reúne as experiências e a visão artística em favor de um drama que revive pesadelos testemunhados de olhos bem abertos em Teerã quando era mais jovem.

Há anos em desenvolvimento, “Holy Spider” enfrentou pressões das autoridades iranianas, precisando mover as suas filmagens para a Jordânia e até trocar de protagonista, uma vez que a escolha número um do diretor e dos produtores se viu desconfortável em rodar cenas privadas sem o uso de hijab. Pior: ameaças seguem rondando os principais envolvidos, principalmente a atriz Zar Amir-Ebrahimi, vencedora do prêmio de Melhor Atriz no Festival de Cannes.

“Holy Spider” é diretamente inspirado pelo caso de Saeed Hanaei, conhecido como Spider Killer, assassino em série que eliminou 16 prostitutas entre 2000 e 2001. Veterano de guerra, foi um fundamentalista que defendeu as suas motivações com base em sua fé deturpada. Assim como é o Saeed (Mehdi Bajestani) da ficção, cujos atos tentam ser expostos por Rahimi (papel de Zar Amir-Ebrahimi), uma jornalista que ensaia nas ruas ser uma potencial nova vítima para, assim, desmascará-lo com o auxílio da polícia local.

Atordoante, “Holy Spider” explicita a misoginia de Saeed não para evidenciar o choque, mas sim com o propósito de comentar sobre como não há níveis de atos bárbaros que não encontrem a defesa de seus pares, o que também inclui mulheres lamentavelmente contaminadas pelo ambiente em que nasceram e obrigadas à sobrevivência abrindo mão de um sem-número de liberdades individuais.

Mesmo com tudo isso, Ali Abbasi, em parceria no roteiro com Afshin Kamran Bahrami e com supervisão de texto de Jonas Wagner, ainda consegue preservar o respeito a esse enredo sem abrir mão dos componentes do entretenimento, pois “Holy Spider” é também um thriller de primeira que nos converte em observadores imediatamente complacentes com Rahimi. O sucesso se deve, sobretudo, ao desempenho de Zar Amir-Ebrahimi, de fato um dos mais extraordinários do último ano e que equilibra tão bem a vulnerabilidade e o desejo por justiça de sua heroína.

Há, entretanto, deslizes no ato final, em que os discursos perdem parte da sutileza quando representados por diálogos expositivos. Havia outras saídas mais adequadas para a apresentação dos fatos, mas talvez tenha sido um desejo de “Holy Spider” resultar dessa forma, assim não restando dúvidas para nenhuma cultura exposta ao filme sobre a extensão das atrocidades narradas.

★★★★
Holy Spider
Direção de Ali Abbasi
Assistido no Festival do Rio 2022
Disponível na MUBI

Resenha Crítica | Isolamento Mortal (2022)

Isolamento Mortal

Ainda ativa, a pandemia do coronavírus causou danos que podem ser irreversíveis para a sétima arte, acarretando a interrupção temporária de redes de cinema enquanto serviços de streaming avançavam para chegar aos lares. Hoje, ainda não se criaram planos estratégicos eficazes para promover o retorno de público às salas com o mesmo engajamento de um passado recente.

Em termos de dramaturgia, muitos países atravessaram impasses, com produções investindo em narrativas sobre isolamento social ou em uma redução de personagens e locações para comportar histórias sem causar riscos aos profissionais envolvidos. Voltamos a uma normalidade parecida com a que se tinha até o início de 2020, mas os espectadores ainda encontrarão resquícios de um período traumático na tela grande (ou em dimensões reduzidas, evidentemente).

De tudo o que foi apresentado nos últimos três anos, “Isolamento Mortal” talvez seja o filme mais criativo e divertido do gênero horror ao se apropriar sem reservas do contexto de pandemia. E aqui somos relembrados de seu instante mais apavorante, quando muitos tinham dificuldade para comprar até mesmo papel higiênico na prateleira de um supermercado.

Sem escrever um terror para cinema há 11 anos (sendo o último crédito nada menos que “Pânico 4”), Kevin Williamson junta forças com Katelyn Crabb para elaborar o roteiro de “Isolamento Mortal”. Hoje com 57 anos, o americano não tem qualquer problema em fazer um resgate de todos os elementos que o fizeram ser um dos nomes mais requisitados de Hollywood na segunda metade da década de 1990, fase em que escreveu “Pânico”.

Quase tudo o que caracterizou o teen horror está em “Isolamento Mortal”, como os protagonistas adolescentes (com óbvio destaque aqui para Gideon Adlon, que se agiganta em um papel que, a princípio, pouco oferece para ela), os algozes mascarados, longas perseguições no melhor estilo gato e rato e um ato final com a revelação estapafúrdia das motivações por trás de quem provocou uma carnificina.

O que seria encarado como desgaste de um segmento caso concebido há duas décadas, agora soa como algo novo pelos resultados serem atingidos a partir de méritos que tornam “Isolamento Mortal” quase um estranho no ninho diante de seus colegas. Ao contrário de exemplares batizados pretensamente como “terror elevado”, “Isolamento Mortal” não está interessado em abrir portas para interpretações ou a teorizar ameaças.

Com apenas 83 minutos de duração, “Isolamento Mortal” é curto e direto ao estabelecer personagens e atmosfera e conta com John Hyams como uma escolha acertada para conduzir o terror. Com dois episódios da franquia “Soldado Universal” no currículo, o filho de Peter Hyams consegue aqui apresentar com mais plenitude algumas virtudes comprovadas em seu filme anterior, “Perdida”, no qual tínhamos circunstâncias de isolamento e perseguição.

No entanto, a cereja do bolo é mover todos esses esforços para uma conclusão especialmente divertida. Não somente pela presença da grande atriz Jane Adams, mas também por aquela moralidade torta que a sua personagem traz para o enredo, temperando-o com uma acidez deliciosa.

★★★★
Sick
Direção de John Hyams
Disponível no Globoplay