Isolamento Mortal

Ainda ativa, a pandemia do coronavírus causou danos que podem ser irreversíveis para a sétima arte, acarretando a interrupção temporária de redes de cinema enquanto serviços de streaming avançavam para chegar aos lares. Hoje, ainda não se criaram planos estratégicos eficazes para promover o retorno de público às salas com o mesmo engajamento de um passado recente.

Em termos de dramaturgia, muitos países atravessaram impasses, com produções investindo em narrativas sobre isolamento social ou em uma redução de personagens e locações para comportar histórias sem causar riscos aos profissionais envolvidos. Voltamos a uma normalidade parecida com a que se tinha até o início de 2020, mas os espectadores ainda encontrarão resquícios de um período traumático na tela grande (ou em dimensões reduzidas, evidentemente).

De tudo o que foi apresentado nos últimos três anos, “Isolamento Mortal” talvez seja o filme mais criativo e divertido do gênero horror ao se apropriar sem reservas do contexto de pandemia. E aqui somos relembrados de seu instante mais apavorante, quando muitos tinham dificuldade para comprar até mesmo papel higiênico na prateleira de um supermercado.

Sem escrever um terror para cinema há 11 anos (sendo o último crédito nada menos que “Pânico 4”), Kevin Williamson junta forças com Katelyn Crabb para elaborar o roteiro de “Isolamento Mortal”. Hoje com 57 anos, o americano não tem qualquer problema em fazer um resgate de todos os elementos que o fizeram ser um dos nomes mais requisitados de Hollywood na segunda metade da década de 1990, fase em que escreveu “Pânico”.

Quase tudo o que caracterizou o teen horror está em “Isolamento Mortal”, como os protagonistas adolescentes (com óbvio destaque aqui para Gideon Adlon, que se agiganta em um papel que, a princípio, pouco oferece para ela), os algozes mascarados, longas perseguições no melhor estilo gato e rato e um ato final com a revelação estapafúrdia das motivações por trás de quem provocou uma carnificina.

O que seria encarado como desgaste de um segmento caso concebido há duas décadas, agora soa como algo novo pelos resultados serem atingidos a partir de méritos que tornam “Isolamento Mortal” quase um estranho no ninho diante de seus colegas. Ao contrário de exemplares batizados pretensamente como “terror elevado”, “Isolamento Mortal” não está interessado em abrir portas para interpretações ou a teorizar ameaças.

Com apenas 83 minutos de duração, “Isolamento Mortal” é curto e direto ao estabelecer personagens e atmosfera e conta com John Hyams como uma escolha acertada para conduzir o terror. Com dois episódios da franquia “Soldado Universal” no currículo, o filho de Peter Hyams consegue aqui apresentar com mais plenitude algumas virtudes comprovadas em seu filme anterior, “Perdida”, no qual tínhamos circunstâncias de isolamento e perseguição.

No entanto, a cereja do bolo é mover todos esses esforços para uma conclusão especialmente divertida. Não somente pela presença da grande atriz Jane Adams, mas também por aquela moralidade torta que a sua personagem traz para o enredo, temperando-o com uma acidez deliciosa.

★★★★
Sick
Direção de John Hyams
Disponível no Globoplay

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