Holy Spider

Embora “Holy Spider” seja comercializado por determinados mercados como um filme de serial killer, existem muitas implicações e riscos em seu registro sobre uma história verídica que o elevam ao patamar de espelho cruel de uma realidade ainda vigente. De imediato, temos uma obra que se posiciona com denúncias sobre uma sociedade e a sua visão de homens que usam a religião como instrumento de poder contra mulheres.

Com fama internacional alcançada com o ótimo “Border”, o realizador Ali Abbasi nasceu no Irã em 1981. Adulto, emigrou para a Suécia com o propósito de estudar Arquitetura, mudando radicalmente de ares cinco anos depois ao se graduar em uma escola de cinema da Dinamarca. A trajetória é importante de ser enfatizada, uma vez que Abbasi reúne as experiências e a visão artística em favor de um drama que revive pesadelos testemunhados de olhos bem abertos em Teerã quando era mais jovem.

Há anos em desenvolvimento, “Holy Spider” enfrentou pressões das autoridades iranianas, precisando mover as suas filmagens para a Jordânia e até trocar de protagonista, uma vez que a escolha número um do diretor e dos produtores se viu desconfortável em rodar cenas privadas sem o uso de hijab. Pior: ameaças seguem rondando os principais envolvidos, principalmente a atriz Zar Amir-Ebrahimi, vencedora do prêmio de Melhor Atriz no Festival de Cannes.

“Holy Spider” é diretamente inspirado pelo caso de Saeed Hanaei, conhecido como Spider Killer, assassino em série que eliminou 16 prostitutas entre 2000 e 2001. Veterano de guerra, foi um fundamentalista que defendeu as suas motivações com base em sua fé deturpada. Assim como é o Saeed (Mehdi Bajestani) da ficção, cujos atos tentam ser expostos por Rahimi (papel de Zar Amir-Ebrahimi), uma jornalista que ensaia nas ruas ser uma potencial nova vítima para, assim, desmascará-lo com o auxílio da polícia local.

Atordoante, “Holy Spider” explicita a misoginia de Saeed não para evidenciar o choque, mas sim com o propósito de comentar sobre como não há níveis de atos bárbaros que não encontrem a defesa de seus pares, o que também inclui mulheres lamentavelmente contaminadas pelo ambiente em que nasceram e obrigadas à sobrevivência abrindo mão de um sem-número de liberdades individuais.

Mesmo com tudo isso, Ali Abbasi, em parceria no roteiro com Afshin Kamran Bahrami e com supervisão de texto de Jonas Wagner, ainda consegue preservar o respeito a esse enredo sem abrir mão dos componentes do entretenimento, pois “Holy Spider” é também um thriller de primeira que nos converte em observadores imediatamente complacentes com Rahimi. O sucesso se deve, sobretudo, ao desempenho de Zar Amir-Ebrahimi, de fato um dos mais extraordinários do último ano e que equilibra tão bem a vulnerabilidade e o desejo por justiça de sua heroína.

Há, entretanto, deslizes no ato final, em que os discursos perdem parte da sutileza quando representados por diálogos expositivos. Havia outras saídas mais adequadas para a apresentação dos fatos, mas talvez tenha sido um desejo de “Holy Spider” resultar dessa forma, assim não restando dúvidas para nenhuma cultura exposta ao filme sobre a extensão das atrocidades narradas.

★★★★
Holy Spider
Direção de Ali Abbasi
Assistido no Festival do Rio 2022
Disponível na MUBI

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